Vocês sabem que eu adoro escrever textos engraçados e fazer as pessoas rirem, porque eu também adoro rir. Não tem preço pra uma boa gargalhada. Mas o fato é que nem sempre eu acho graça na vida, ou melhor, tem momentos em que vejo como é difícil viver. Principalmente quando defronto com mudanças: tenho pavor delas. Das mais singelas às radicais, elas sempre me assustam. Na realidade temos uma relação dialética, porque ao mesmo tempo em que me deixam com o coração na boca, as situações de mudança em que me coloco ou em que o destino me coloca também me atraem e instigam.
Pois eis que o Leonardo está de mudança. E conseqüentemente estou também. Em breve terei um novo companheiro de piso e tudo recomeçará, a adaptação a novos hábitos, ter alguém diferente pra dividir os medos, ansiedades, saudades e alegrias. Ou não. Eu também não sei por quanto tempo permanecerei aqui.
Tem dias em que me olho no espelho e me sinto feio. Em outros me dedico a me observar de verdade, não com a frivolidade de quem lê revistas de moda, mas me encaro profundamente e admiro quão lindo e perfeito é o corpo que tenho. Miro o negro das pupilas e pergunto o que há por detrás delas, o que me torna quem eu sou, vejo o modo como meus dedos se dobram, a pele se estende, na anatomia perfeita e provisória que me compõe. Me pergunto até quando serei matéria digna de admiração, em que ocasião meu corpo deixará de ser máquina, se tornará um estorvo, padecerá da ação do tempo, sucumbirá em fendas que libertarão a minha alma para a Luz. Estarei de volta à terra, virarei pó e depois nada.
Me entristeço em saber que um dia isso acontecerá, porque vejo-nos tão perfeitos e a um só tempo tão efêmeros. Os únicos registros que temos dos que vieram antes de nós são em sua maioria objetos bidimensionais, retratos, filmes em tela, e há outros ainda menos palpáveis, como gravações de voz que nos sopram aos ouvidos. Mas haverá o dia em que mesmo esses documentos desaparecerão para dar lugar a outros de outros de nós, que perpetuarão de alguma forma a beleza de nossa raça. Porém nunca mais serão nós mesmos. Se apoderarão das nossas descobertas e seguirão um rumo mais à frente, mas o que descobrirem não nos pertencerá como no primeiro caso.
Eu me detenho em cada pequeno detalhe do que vejo. Tento memorizar tudo na máquina fotográfica dos meus olhos, que é a mais exata que existe. Já tentei com a câmera igualar nas fotos as cores que vejo na realidade, mas há aquilo que só os meus olhos vêem, porque estão atrelados à alma. Tem imagens que eu penso que ficarão impressionantes no papel, mas que me desapontam depois de passar pelo engenho da câmera. Não sei em quantos lugares voltarei nem se voltarei, se minhas janelas estarão novamente abertas naquela direção, se a cintilância de outra ocasião ajudará, mas de todo modo as circunstâncias jamais serão as mesmas. Isso me alegra e entristece: nunca mais nada será igual.
Há dias em que, comendo na cozinha, me surpreendo absorto nos ímãs colados na porta da geladeira. Quero me certificar que existiram, que eu me detive a eles, pois é a única maneira de saber que eu estive ali. O cheiro que sobe do pátio interno também é muito peculiar. Sempre que eu estendo roupas na janela de onde posso vê-lo, sinto o mesmo cheiro de lugar fresco que nunca foi tocado pelo sol. Não o classificaria de bom ou ruim, apenas de algo que jamais senti no Brasil. Há cheiros que só existem na Europa, e outros que só em terras brasileiras se podem notar. Como cada experiência minha aqui se pretende ser única, tento me fixar ao máximo nos detalhes, para que não me escapem.
Fico feliz que Leonardo se vá. Ele pretende passar 2 meses na Colômbia, pra depois regressar à Espanha. Quando fala de seu país, seus olhos faíscam e sua aura se dilata. A dor da saudade é visível no descompasso dos seus atos quando o tema são as ruas de Bogotá, a casa de sua mãe, o irmão loiro tão diferente dele. Sua voz se embarga e ele dá pulos feito menino. Tem uma hora em que não dá pra agüentar mais, nenhum corpo suporta a distância do seu eixo por tanto tempo, com tão pouca idade. Ou ele volta ao seu eu original, ou se embrutece definitivamente, ou seu corpo se rompe para dar vazão à alma desgarrada do contexto.
Melancólico, eu volto ao espelho e me observo com calma novamente. Os olhos cor-de-mel são iguais aos de minha mãe, a palidez da pele no seu entorno também. A sinuosidade do queixo vem do meu pai, bem como a forma das mãos. São tantos traços, tão complexos e sabiamente ordenados. Passeio pelo apartamento questionando o calor que faz para o inverno europeu, me lembro da temperatura incomum que assola o Brasil nesse verão. Meus pés voltaram a estourar por conta da acidez. Olho pela janela e uma mulher me fita de outra varanda, enquanto traga um cigarro. Me pergunto o que ela vê pela vidraça embaçada do meu quarto. Me pergunto se nota que eu chorei. Me pergunto onde está minha casa.
lunes, 11 de febrero de 2008
viernes, 8 de febrero de 2008
Na batucada de Sitges
Janeiro foi uma nulidade pra mim. Exceto pelo fato de conhecer a Noruega, todo o restante do mês foi vazio. As minhas aulas no mestrado não chegaram a empolgar (ainda que eu continue adorando o curso), tive uma paixonite que quase não durou (ahh, jura?!), enfim, passei janeirão praticamente em brancas nuvens, mesmo - isso, claro, sem contar o fato de que durante uma semana fiquei muito triste por causa dessa pessoinha por quem estive apaixonado. Também já é passado esse fato, portanto nem vou me estender sobre ele. A minha justificativa para o meu desaparecimento da internet por esses dias é simples e atende pelo nome de "preguiça". Lo siento, cariños, pero es lo que hay.Opa!! Eu estava sendo injusto e esquecendo uma coisa MARAVILHOSA, ESTUPENDA e FANTÁSTICA que me aconteceu: ao menos eu reencontrei aquele meu ex-namorado do passado remoto e falamos por 4 horas! Eu acreditava que fosse ser uma conversa tensa e mascarada, mas estava enganado. Nosso papo foi fluido, sincero, pude olhá-lo de novo com calma e pensar no quanto gosto do que a gente compartilhou quando namorávamos. Por mais que eu já tivesse o assunto bem resolvido na cabeça, foi incrível poder dizer-lhe o que sentia e pensava sobre nossa relação passada. Eu acho que devo fazer isso mais vezes na vida, e recomendo a todos que façam o mesmo. Quando nutrirem um sentimento confuso por alguém, sentem-se com a pessoa e esclareçam. Isso, óbvio, se ela estiver aberta a uma conversa franca e positiva. Como nós dois estávamos naquele momento. Senão, deixem que o tempo resolva por si só, comigo levou 8 anos para que esse diálogo se estabelecesse! Sim, eu sou o rei da paciência, embora às vezes eu não creia nisso.
Bueno, pois eis que chega o carnaval. Aqui em Barcelona, eu imaginei que fosse ser um marasmo só. Famosas mesmo são as festas de máscaras de Veneza e eu sinceramente acreditei que só na Itália rolasse um carnaval animado, além do Brasil, é claro. Pois felizmente eu estava enganado. Ainda que seja de uma alegria tímida e respeitosa, os espanhóis até que sabem fazer auê. Barcelona tem um calendariozinho de atividades para a ocasião, mas o local mais famoso pra curtir isso, por ser o reduto dos gays locais (por supuesto!), é Sitges.A cidade
Sitges é um pueblo (povoado) que fica a uns quarenta minutos de trem de Barcelona, seguindo rumo ao sul do país. É uma cidadezinha essencialmente praiana, tanto que no verão os visitantes bombam, em sua maioria gays. Tem casas e construções muito brancas que lembram a Grécia. É o reino dos endinheirados e dos velhinhos (o que não é novidade, pois aqui na Europa tem muito, muito idoso, em qualquer canto), com lojas cheias de marcas famosas. Vários acontecimentos chamam a atenção para o local, em diferentes épocas do ano: em fevereiro tem carnaval, em junho, o festival internacional de teatro, em agosto, a festa mayor, e em outubro, festival de cinema.
Bom, vou me deter ao carnaval. Fomos eu e Layanna para lá, dispostos a nos jogar. A festa tem desfiles de fantasia (não sei se eles chegam a ser organizados a ponto de ter escolas de samba como no Rio, mas creio que as academias de dança e outras agremiações, como liceus de música, têm seus blocos, ou pelo menos colocam seus nomezinhos nos carros que passam no desfile), bailes acontecendo por toda a cidade, e uma galera sai fantasiada na rua. O mais bacana: os pais enfeitam seus filhos, então rola de ver a criançada vestida de bichinho, fada, mago, reizinhos... Dá vontade de morder todos eles, de tão fofos! Tudo lúdico e divertido. Gente pelada é raro, até entre os gays. Mesmo porque se alguém sai sem roupa na rua, morre congelado em poucos minutos. A temperatura por esses dias chegou nos 13 ºC!Cores e imagens
Deixo as fotos falarem por si mesmas. E dessa vez tem até videozinho de lambuja, pra vocês ficarem felizes. Tenho novidades maravilhosas a caminho, mas só as contarei assim que estiverem definidas. Por enquanto, descubram um pouco do carnaval espanhol, que foi agitado e com uma pitada do batuque brasileiro. E vocês, me mandem suas novidades. Beijos e saudades eternas!
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