martes, 8 de julio de 2008

Feliz ano novo (de mentira)

Conforme vai amanhecendo o dia, se pode ouvir os estouros de bombinhas das crianças que brincam animadas na rua. Há clima de festividade no ar, as pessoas se preparam, dormem à tarde para estar animadas para a noite, compram fogos de artifício, se vestem de branco e se atiram ao mar à meia-noite. O calor é forte e todos usam roupas leves. Querem boas vibrações.

Quem lê esse texto tem certeza absoluta de que eu estou descrevendo o 31 de dezembro de qualquer ano em Copacabana ou em outro lugar do Brasil, certo? Errado. Na verdade, essa é a preparação dos catalães para a Festa de Sant Joan. O evento deles acontece na mesma época que o nosso, também tem fogueira e muito barulho de bombinha, mas algumas diferenças básicas.

A primeira delas é que se nós, como ultra católico que somos, celebramos o dia de São João, eles comemoram o solstício de verão. Pra quem cabulou aula de geografia como eu (que agradeço o apoio da Wikipedia para escrever esse texto), explico: o solstício de verão é o dia em que o sol atinge sua maior declinação em latitude medida a partir da linha do Equador (oohhh!), em termos práticos é dizer que o astro-rei aparece mais cedo pela manhã e se põe o mais tarde possível. Assim, todos dizem que é o dia mais longo do ano, seguido conseqüentemente da noite mais curta.

A segunda é que eles nesse dia não comem pipoca, nem bebem quentão, vinho quente, ou caem de boca na paçoca ou pé-de-moleque, mesmo porque esses últimos nem existem na Catalunha. O que eles comem é um tipo de bolo (ou torta?) chamado “coca”. Existem as cocas de mil folhas, de fruta e creme. São deliciosas, lindas e principalmente engordativas. Estão em todas as pastisserias e supermercados, em tamanho grande, gigante, astronômico e super-hiper-mega-bláster-mamãe-quero-virar-balão. Sim, porque eu procurei uma coca de medida mais tímida e encontrei só uma tamanho imigrante-sem-família bem meia-boca, mas deixa isso pra lá.

Tirando o fato de eles não comemorarem o dia do São João (aliás, nem me perguntem porque a festividade se chama dia de Sant Joan), nem terem como comida típica as mesmas que as nossas, para eles também não existe quadrilha, nem festa na roça, em suma, nada de lúdico. Já que no ano novo eles não podem se jogar no mar como nós, pois aqui nessa época é inverno e o frio é de doer, eles criaram essa coisa que não passa de um evento pra fazer barulho, muito barulho, ficar gordo, colestérico e gastar todo o seu salário em fogos de artifício. É como um réveillon de mentirinha sem propósito.

Por curiosidade eu fui com o Javi à meia-noite de segunda-feira para ver como era a tal festa na praia e só há uma palavra para definir o que senti: medo. Medo de toda a gente feia e porca que estava lá, de todas as explosões que se aproximaram de mim, enfim, pavor total. Tanto é que gravei um pouco da visão do inferno para vocês se certificarem de que não estou mentindo, e incrementei nossa musiquinha tradicional de festa junina para homenagear o ambiente catalão. Ficou assim:

O balão vai subindo
Vai caindo a garoa
O céu é tão lindo
A noite é tão boa

São João, São João
Acende a fogueira no meu coração

Me arrebenta o tímpano
Com um forte rojão

Queima o meu braço
Me estoura a mão

Atira uma bomba
Que eu dou um mijão

lunes, 16 de junio de 2008

Killing monday

Hoje eu acordei com tanta dor de cabeça que tudo me irrita. Embora esteja no Parlamento, que como já disse é um palácio maravilhoso num parque exuberante dentro de Barcelona, parece que há uma conspiração de todos os animais para não me deixar em paz.

Eu não contei a vocês, mas o Parque da Ciutadella fica ao lado do jardim zoológico da cidade. Então, claro, eu ouço todos os sons dos bichos que vivem lá, desde os mais gulturais aos mais estridentes. Eles todos descobriram de alguma maneira que minha cabeça retumba alucinadamente para fazer muito alvoroço. As cratatuas (ou seja lá como se chamam, só consigo chamá-las dessa maneira no momento) estão piando surtadas, as gaivotas decidiram fazer uma reunião no telhado do Parlamento, os gatos estão esfomeados e miam incessamente por comida, os passarinhos revoam se perguntando, todos ao mesmo tempo, para que lado vão. Até um barco de turismo, que eu nunca tinha visto tão próximo da orla como hoje, decidiu mostrar a todos os habitantes barcelonenses que está chegando repleto de turistas felizes, e apita pesadamente.

Nesse dia belo e ensolarado, se eu tivesse dotado de uma bazuca potente, seria o primeiro serial killer de animais da história do mundo a matar um maior número de espécies diferentes por metro quadrado. Embora tudo me remeta a um cenário paradisíaco (ruído de gaivotas, barco, brisa chacoalhando de mansinho as folhas das árvores), para mim parece que os animais estão todos histéricos e um transatlântico anfíbio assassino irromperá dentro do parque para aniquilar os representantes da raça humana que trabalham no Parlamento da Catalunha. Vou pra casa tomar um remédio matador para aniquilar a fanfarra que toca sem parar no meu cérebro. God save Neosaldina forever.

miércoles, 11 de junio de 2008

Houve uma vez um verão

Todas as fogueiras, palitos de fósforo e velas que já foram fabricadas e ainda serão queimando ao mesmo tempo e em um só lugar.
Uma cadeia formada por todos os vulcões do mundo escarrando sua lava de milhares de graus até esgotar-se o limite máximo de rocha líquida que há no centro da Terra.
A junção de toda a energia nuclear produzida pelas usinas do planeta explodindo em massa única de calor.
Todos os sóis e estrelas pertencentes à coleção de Deus colocadas numa caixa fechada de zinco.

Toda essa quentura descrita aí em cima é o que me vem à cabeça quando gente de todas as partes – inclusive brasileiros - me conta como foi o verão de 2003 (ou 2004? Foi um verão a que todos se referem como “houve um ano...”, ao menos sei que é recente) aqui em Barcelona. Dizem que usualmente nessa época o asfalto vira uma chapa quente (alguém aí pensou em Rio de Janeiro?) e a cidade se torna uma sauna a céu aberto. Eles então amaldiçoam para todo o sempre o inventor da roupa e invejam ardentemente Adão e Eva, que caminhavam por aí com seus dotes quase a mostra – e bem fresquinhos.

Até o momento eu tive um pequeno vislumbre do que é o calor de verão na Catalunha. A primavera européia é úmida, mais úmida que um brejo matogrossense, ou mesmo que as partes baixas da Cicciolina antes de rodar um filme. Eu, que sempre fui avesso a guarda-chuva, tive que adotar um para não chegar em casa encharcado depois das aulas do máster. Confesso que só o fato de não ter que colocar um casaco pesado já é um alívio, mas calor mesmo, até agora só de brinde. Dizem que eu me arrependerei de dizer a todo momento “quero calor, quero calor”. De qualquer forma, estou seguro que o clima do inferno deve ser bem mais sugestivo que a inocuidade do paraíso.

domingo, 8 de junio de 2008

Em Lyon com Kylie Minogue

Eu adoro viajar. Desde sempre, desde que o mundo é mundo, desde que me conheço por gente. Então vivo buscando motivos para conhecer lugares diferentes. No mês passado, a razão que eu encontrei foi ir ver a Kylie Minogue na França. Sua turnê não previa qualquer passagem por Barcelona, então eu teria de ir a outro país para vê-la. Antes, um breve comentário sobre a passagem dela pela Espanha.

Eu sabia que ela viria para cá, então porque não ir vê-la em Madrid? Seria mais barato, a capital é logo ali e eu já conheço a cidade, assim nem me perderia. Acontece que há algum tempo eu conheci um menino pela internet. Na conversa sobre artistas pop, me disse que curtia a Kylie e que iria vê-la no Palácio de Esportes de Madrid. Porém... ele me contou que nunca teve muita sorte no que se tratava de Kylie Minogue. Tentara vê-la duas vezes: uma aqui em Barcelona, há muitos anos, e outra na Irlanda. Nessas duas ocasiões em que esteve a um passo de assistir seus shows, ambos foram cancelados. Na primeira vez, ela teve um problema de saúde x que a impediu de vir. Na segunda, foi o câncer que a fez anular algumas apresentações de sua turnê. Depois de me contar a história, ele se virou para mim e perguntou: “Você acha que foi má sorte minha?”. Eu respondi (pouco convencido da minha própria resposta): “Nãããoooo, imagina!”. Sabendo desse pé-frio histórico dele e que dessa vez esperava ver a cantora em Madrid, preferi não arriscar, não é mesmo minha gente? Além do mais, era um motivo para eu voltar à França e conhecer Lyon. Pois para lá rumamos eu e Javier - que eu conheci depois de ter o casinho com o tal azarado - na sexta-feira passada.

O tempo estava duvidoso, mas já tínhamos tudo comprado, passagem aérea, hotel reservado, ticket para o show, então nos enchemos de coragem e fomos. Chegamos em Lyon e chovia, básico. Felizmente, o tempo ficou entre o chuvoso chato e o quase ensolarado agradável. O tempo na Europa durante a primavera é instável: pode chover a qualquer hora do dia, venta muito, e fica aquele sol intermitente atormentado por nuvens que passam rápido. Em 2006, quando estava de férias em Paris nesse mesmo período do ano, foi infernal. Virava e mexia fechavam as praças e parques porque era vaso de flor voando para um lado, areia nos olhos do povo para outro. Dessa vez, além desse clima pentelho, os franceses estavam mais grossos do que eu jamais havia visto em minha vida. Na verdade, foi a junção dos opostos: ou os atendentes eram de um amor exagerado com a gente, ou nos tratavam a pontapés verbais. Eu também libertei meu lado faça-seu-trabalho-direito-que-eu-estou-te-pagando-pessoa-estúpida!, e ficamos quites. Tirando esses fatores, a viagem foi bem legal. Sem contar que eu amo viajar com o Javi porque é o tipo de companhia que topa qualquer programa, por mais de índio que possa parecer.

Lyon é linda. Dois rios cortam a cidade e eu não posso com lugares com água no meio! É uma pena que no Brasil, muitas vezes quando há um rio em uma região, ele vira esgoto a céu aberto. Basta haver uma tormentazinha em São Paulo e o Tietê se transforma num catálogo de embalagens vazias. Todos que moram ali já viram esse fenômeno. Sem contar o delicioso perfume que o pobre Tietê exala nos dias de verão. Os fabricantes de ar-condicionado para automóvel adoram! Voltando a França, o Ródano (será que é esse nome que adotamos para o rio em português? Bom, para que conste, o Rhône em francês) é majestoso, com sua correnteza forte e sua cor verde prateada. Além dele, passa pela cidade o rio Seône (?), e há um ponto em que os dois se emparelham e se forma uma ilhazinha no centro de Lyon, assim como acontece em Paris. É um local de sonho. A cidade velha, na margem esquerda dos dois rios, também é imperdível: boêmia, tem barzinhos e restaurantes que lotam de gente bonita, jovem e rica (porque se não for rica não tem como comer e beber ali, já que tudo é carésimo). Enfim, adoramos.

Sobre o concerto de Kylie Minogue, bem... Eu sei que tem gente que vai ler isso e querer me matar em seguida (com a distância, vai rolar uns vudus com a minha cara no Brasil, já antevejo), mas como essa mulher é cafona! Eu gosto de suas músicas, seu último CD está bacana, mas é um tal de tentar ser fashion que não tem limite. Figurino show de horror: teve música lenta a la Céline Dion, ou seja, cantando baladinha com vestido de formatura, inaceitável. Cabelo de Dercy Gonçalvez só é bonito para a própria atriz tupiniquim, que nenhuma cantora australiana tente copiar, por favor (leia-se “cabelo de Dercy Gonçalves” por coque banana com franja despenteada, como Madonna também leva na capa de Hard Candy – pavoooorrrrr!). E as manias robóticas de Kylie? Gente, ela começa o show vindo de uma teia eletrizada, cantando Speakerphone, que é uma canção cheia de efeitos eletrônicos... Tenho medo. Mas claro que, felizmente, também tem partes bem boas: um número em que ela canta Copacabana (nem sei se é esse mesmo o nome da música, aquela que começa com “Her name was Lola, she was a showgirl” e cujo refrão é “In Copacabana they fell in love, pa pa pa rá, Copacabaaaannaaaa!”). Ainda rolou In my arms, que eu qusase voei no teto para pular com a galera. Enfim, o saldo da experiência foi positivo. Agora é esperar para ver a Sticky and sweet tour da Madonna. Como o álbum está meia-boca, espero que pela menos ela arregace no show.

Bom gente, mas o “melhor” da viagem estava por vir... Nosso vôo saia às 9h45 de segunda-feira. Estávamos podres da noite anterior, em que fomos pra cama às 3h e pouco. Teríamos que acordar às 7h, ambos colocamos os celulares para despertar nesse horário. Mas eis que segunda-feira chega, chove lá fora e aqui faz tanto frio.... Imagina se os dois preguiçosos não quiseram ficar dormindinhos até um pouco mais tarde? Quando nos demos conta, já era 8h20. Nos vestimos voando, fizemos um check-out relâmpago, saltamos pra dentro do metrô, nos jogamos no ônibus que nos levava ao aerorporto, mas.... segunda-feira é segunda-feira em qualquer lugar do planeta. Nos esperavam nessa ordem chuva, trânsito lento, gente sonada e mal-educada em todas as partes, aeroporto de Lyon minúsculo em reforma e mal sinalizado, caminho entre o Terminal 1 de desembarque (onde o motorista do ônibus gentil e educadamente nos deixou, claro) a 300km sob chuva constante do Terminal 2 de embarque, excursão com 800 velhinhos portugueses voltando para Lisboa para passar no raio-X antes de nós. Resultado: praticamente bateram a porta do único vôo da Easyjet (a companhia aérea mais barateira que havia nos levado à França) na nossa cara, na frente de uma multidão que ia para outros destinos. E nós, com nossos narizinhos vermelhos de palhaços, fomos buscar informação sobre outros vôos para Barcelona.

Bom meu povo, Lyon não é Paris. As únicas opções que tínhamos para voar, além da Easyjet que só tem um vôo diário Lyon-Barcelona, era a Air France, que nos sairia por 500€, ou a Iberia, por 1.000€. Em suma: a solução viável era voltar de trem ou ônibus. Aproveitamos que os trens saiam do aeroporto Saint-Exupéry, onde já estávamos, para ver se algum ia rumo ao sul. Nenhum. Todos se destinavam à capital ou ao norte do país, então a única saída era mesmo pegar um bumba.

Vocês podem pensar que o único problema de pegar um ônibus na Europa é – como em qualquer lugar do mundo - a distância, correto? Errado. Aqui viajar de avião é beeem mais barato que no Brasil, logo todos preferem voar ou ir de trem. Quem toma ônibus é ou o passageiro de última hora que não conseguiu encontrar um vôo barato de maneira alguma (nosso caso) ou imigrante (dos bálcãs, dos países árabes ou da pqp mesmo) sem dinheiro que não tem um puto furado. Sem querer ser preconceituoso e já sendo, tomamos o bumba com um monte de gente peba, sem contar que o local fedia, os bancos estava com alguns pontos rotos, tínhamos que brigar com o motorista para que ele ligasse o ar-condicionado, e um último detalhe que deixo para vocês apreciarem no video abaixo. E ônibus na Europa pára em todo e qualquer recôncavo mais reconcavado, reconvexo mais reconvexado, de modo que depois da Kylie fazer sua tour mundial, foi a nossa vez de excursionar pelo sul da França.

“Conhecemos” Valence, Orange, Avignon, Nîmes, Montpellier, Béziers e Perpignan, até passar pelo norte da Espanha e chegar em Barcelona. Ao todo foram onze horas de diversão ininterrupta – e de bunda quadrada. Isso sem contar que cada um gastou 100€ a mais do que o previsto, e quando chegamos às 3h da manhã de terça-feira à estação de Sants, em Barça, descobrimos que a querida também estava em reforma, tivemos que dar a volta ao mundo para chegar em casa, caminhando com malas nas costas de madrugada, chovendo. Agora nossa piada interna é “para onde vamos de ônibus da próxima vez”? Pensamos nos destinos mais insólitos, como Nepal, Índia ou China. Dizemos que quanto mais longe, mais divertido será. Basta ver nossas caras no vídeo para saber que nossa turnê foi tuuudoo de bom, e que estamos contando as horas para repeti-la.

lunes, 26 de mayo de 2008

Eu mudei

Oi pessoas queridas. Faz muito tempo que não escrevo nesse blog, alguns até acharam que o pobrezinho tinha morrido. Mas não, aqui estou eu escrevendo e ele sendo recheado novamente com minhas palavritas. Esses últimos meses foram uma correria, mas hoje em particular estou com tempo para escrever, então vamos lá.

Muitas mudanças aconteceram desde que escrevi meu último texto aqui no blog. A mais importante delas é que ontem precisamente eu mudei de casa. Pois é, mudei por vários motivos. Um deles é que não podia mais com Pablo. Não que tenha sido uma convivência traumática, longe disso, mas sabe aquelas pessoas que não acrescentam nada à nossa vida e mesmo assim temos que olhar na cara todo santo dia? Ai, não dava mais. Ele me irritava nas mínimas coisas, e creio que a mais chata é que era detalhista com assuntos inúteis, como a louça que não havia sido retirada do escorredor (mesmo que estivesse molhada ou que mais pessoas com braços e mãos em perfeito estado e tempo disponível também pudessem fazer isso, mas não o faziam), o lixo que não havia sido posto na rua, etc. Eu sou organizado e portanto acabo arrumando tudo a minha volta (ou ao menos tentando), então tem gente que se aproveita e deixa tudo a meu encargo. Aí quando eu percebi que eles faziam corpo mole na limpeza do apartamento esperando chegar a minha vez para que eu desse a geral, me irritei e decidi acabar com a folga. Aliás, por que vocês acham que brasileiro que vem pra cá fazer faxina geralmente ganha uma nota preta? A gente arrepia na limpeza e eles notam.

Então ontem dei meu grito de liberdade (assim, tal qual os eternos escravos das novelas das seis da Globo). Juntei meus pertences e saí correndo daquele lugar. Só não saí mais rápido porque estava carregado de roupas, livros e… lixo! Como a gente consegue juntar tanto lixo, me digam! Eu armazenei durante todos esses meses de máster catálogos de editoras e agentes, postais de propaganda, fitinhas de Sant Jordi, tanta porcaria! Agora, conforme for arrumando meus objetos na casa nova, metade vai pro lixo com certeza. E há livros que quero doar, porque fomos ganhando no curso alguns títulos daqueles que encalham nas livrarias e o povo das editoras, não sabendo o que fazer com eles, os dá aos pobres alunos esfomeados dos másteres. Enfim, não lerei, por tanto farei a boa ação de doar-los.


Além dessa mudança drástica, outra coisa que me aconteceu nesse meio tempo foi estagiar no Parlamento da Catalunha, de onde escrevo nesse momento. É o lugar onde se fazem e modificam as leis que rege essa província, e para os espanhóis trabalhar no Parlamento da Catalunha tem o mesmo peso de estagiar na Casa Branca para os norte-americanos. Aqui maqueto os diários de sessão do Plenário, ou seja, pego o texto que os transcriptores das sessões registram e passo para o Indesign, um programa que me permite editar o arquivo para depois mandá-lo à gráfica e colocá-lo na web. Caso algum de vocês tenha a mínima curiosidade de conhecer o parlamento, segue abaixo o link da instituição:

http://www.parlament.cat/portal/page/portal/pcat/IE00

Nem sei ao certo como consegui essa vaga. Havia um montão de gente louca pra conseguir o posto (na Espanha pega muito bem ter no currículo a informação de ter trabalhado em órgãos públicos, ainda mais um dessa importância), e com a fila de catalães que queriam vir pra cá, eu passei na entrevista! Enfim, até hoje não sei bem como me aconteceu isso. A pena é que eram somente quatro meses de estágio, e agora falta só um. Sentirei saudades daqui, todos são gentis, educados e fofos. Sem contar que o local onde trabalho é um palácio, com direito a poder olhar para aqueles lustres maravilhosos que só se vê em castelos, escadarias com tapete vermelho e tudo mais! Um luxo.

Já sinto muita saudade do Brasil, e ela me pega em momentos esdrúxulos. Tipo outro dia estava lendo um blog de fofoca e alguém dava um link direcionando para um vídeo de erros de jornalistas no youtube. Era o William Wack falando incorretamente o nome de uma correspondente de Brasília. Depois dele, haviam erros de outro William, o Bonner, mais Fátima Bernardes e Ana Paula Padrão. Esses minutos que passei revendo alguns telejornais me deu uma vontade louca de chorar, tanto que tive que ir pra cama para não entrar em crise. Não que eu já queira voltar, mas tem coisas que em nenhum outro lugar do mundo se consegue reproduzir como o que temos em nossa casa, ou pelo menos não de imediato.

Os amigos me fazem muita falta, principalmente porque posso falar português aqui com raríssimas pessoas. Os únicos brasileiros com quem me identifico estão ocupados com seus estudos, trabalho ou namorados a maior parte do tempo, como seria aí no Brasil. E há aqueles que vêm pra cá só pra ganhar dinheiro e com os quais em geral não tenho nada a ver. No fim acabo falando castelhano e catalão 95% do meu tempo. É como seu eu tivesse criado uma outra versão de mim, já que a língua é de modo geral um fator forte para dizer quem somos e como pensamos. Pode haver um certo exagero nessa minha afirmação, mas não duvidem que a língua pesa muito na nossa vida.

Também me dilacero de saudades dos meus pais, óbvio. E saber que os meses passam e cada dia passado é tempo a menos que desfrutarei com eles me dá tristeza. Agora que estou fora, tudo o que me acontece sinto com intensidade triplicada, pois não tenho o apoio presencial dos meus pais. Eu demorei para vê-los e conversar com eles através da câmera do Skype, fiz isso ontem e me parece que foi pior. Sabe o ditado “o que os olhos não vêem o coração não sente?”. Eu tenho um problema brutal com a velhice. Perceber que eles avançam para a morte é dificílimo para mim, ainda que eu saiba que eles estão saudáveis, ativos e felizes.
Mas o intuito desse texto não é passar uma mensagem triste a vocês. Ao contrário. Meu sonho de viver aqui continua sendo um sonho, talvez um pouco mais desbotado com o esmorecimento natural que o cotidiano nos proporciona e com as dificuldades que alguém enfrenta ao estar no exterior. O que mais me surpreende é acordar todas as manhãs e perceber que meu entorno está diferente, que o mundo no qual estou submerso agora há um ano simplesmente não existia (para mim, porque ele sempre esteve aqui para os outros), e que a gente tem o poder de fazer o que nos dê na telha, desde que realmente queiramos. E preciso focar nessa idéia para um novo desafio ao qual me proponho nesse momento, sobre o qual explicarei num próximo post. Mandem notícias quando puderem e cuidem-se!

lunes, 11 de febrero de 2008

Sobre o que é transitório

Vocês sabem que eu adoro escrever textos engraçados e fazer as pessoas rirem, porque eu também adoro rir. Não tem preço pra uma boa gargalhada. Mas o fato é que nem sempre eu acho graça na vida, ou melhor, tem momentos em que vejo como é difícil viver. Principalmente quando defronto com mudanças: tenho pavor delas. Das mais singelas às radicais, elas sempre me assustam. Na realidade temos uma relação dialética, porque ao mesmo tempo em que me deixam com o coração na boca, as situações de mudança em que me coloco ou em que o destino me coloca também me atraem e instigam.

Pois eis que o Leonardo está de mudança. E conseqüentemente estou também. Em breve terei um novo companheiro de piso e tudo recomeçará, a adaptação a novos hábitos, ter alguém diferente pra dividir os medos, ansiedades, saudades e alegrias. Ou não. Eu também não sei por quanto tempo permanecerei aqui.

Tem dias em que me olho no espelho e me sinto feio. Em outros me dedico a me observar de verdade, não com a frivolidade de quem lê revistas de moda, mas me encaro profundamente e admiro quão lindo e perfeito é o corpo que tenho. Miro o negro das pupilas e pergunto o que há por detrás delas, o que me torna quem eu sou, vejo o modo como meus dedos se dobram, a pele se estende, na anatomia perfeita e provisória que me compõe. Me pergunto até quando serei matéria digna de admiração, em que ocasião meu corpo deixará de ser máquina, se tornará um estorvo, padecerá da ação do tempo, sucumbirá em fendas que libertarão a minha alma para a Luz. Estarei de volta à terra, virarei pó e depois nada.

Me entristeço em saber que um dia isso acontecerá, porque vejo-nos tão perfeitos e a um só tempo tão efêmeros. Os únicos registros que temos dos que vieram antes de nós são em sua maioria objetos bidimensionais, retratos, filmes em tela, e há outros ainda menos palpáveis, como gravações de voz que nos sopram aos ouvidos. Mas haverá o dia em que mesmo esses documentos desaparecerão para dar lugar a outros de outros de nós, que perpetuarão de alguma forma a beleza de nossa raça. Porém nunca mais serão nós mesmos. Se apoderarão das nossas descobertas e seguirão um rumo mais à frente, mas o que descobrirem não nos pertencerá como no primeiro caso.

Eu me detenho em cada pequeno detalhe do que vejo. Tento memorizar tudo na máquina fotográfica dos meus olhos, que é a mais exata que existe. Já tentei com a câmera igualar nas fotos as cores que vejo na realidade, mas há aquilo que só os meus olhos vêem, porque estão atrelados à alma. Tem imagens que eu penso que ficarão impressionantes no papel, mas que me desapontam depois de passar pelo engenho da câmera. Não sei em quantos lugares voltarei nem se voltarei, se minhas janelas estarão novamente abertas naquela direção, se a cintilância de outra ocasião ajudará, mas de todo modo as circunstâncias jamais serão as mesmas. Isso me alegra e entristece: nunca mais nada será igual.

Há dias em que, comendo na cozinha, me surpreendo absorto nos ímãs colados na porta da geladeira. Quero me certificar que existiram, que eu me detive a eles, pois é a única maneira de saber que eu estive ali. O cheiro que sobe do pátio interno também é muito peculiar. Sempre que eu estendo roupas na janela de onde posso vê-lo, sinto o mesmo cheiro de lugar fresco que nunca foi tocado pelo sol. Não o classificaria de bom ou ruim, apenas de algo que jamais senti no Brasil. Há cheiros que só existem na Europa, e outros que só em terras brasileiras se podem notar. Como cada experiência minha aqui se pretende ser única, tento me fixar ao máximo nos detalhes, para que não me escapem.

Fico feliz que Leonardo se vá. Ele pretende passar 2 meses na Colômbia, pra depois regressar à Espanha. Quando fala de seu país, seus olhos faíscam e sua aura se dilata. A dor da saudade é visível no descompasso dos seus atos quando o tema são as ruas de Bogotá, a casa de sua mãe, o irmão loiro tão diferente dele. Sua voz se embarga e ele dá pulos feito menino. Tem uma hora em que não dá pra agüentar mais, nenhum corpo suporta a distância do seu eixo por tanto tempo, com tão pouca idade. Ou ele volta ao seu eu original, ou se embrutece definitivamente, ou seu corpo se rompe para dar vazão à alma desgarrada do contexto.

Melancólico, eu volto ao espelho e me observo com calma novamente. Os olhos cor-de-mel são iguais aos de minha mãe, a palidez da pele no seu entorno também. A sinuosidade do queixo vem do meu pai, bem como a forma das mãos. São tantos traços, tão complexos e sabiamente ordenados. Passeio pelo apartamento questionando o calor que faz para o inverno europeu, me lembro da temperatura incomum que assola o Brasil nesse verão. Meus pés voltaram a estourar por conta da acidez. Olho pela janela e uma mulher me fita de outra varanda, enquanto traga um cigarro. Me pergunto o que ela vê pela vidraça embaçada do meu quarto. Me pergunto se nota que eu chorei. Me pergunto onde está minha casa.

viernes, 8 de febrero de 2008

Na batucada de Sitges

Janeiro foi uma nulidade pra mim. Exceto pelo fato de conhecer a Noruega, todo o restante do mês foi vazio. As minhas aulas no mestrado não chegaram a empolgar (ainda que eu continue adorando o curso), tive uma paixonite que quase não durou (ahh, jura?!), enfim, passei janeirão praticamente em brancas nuvens, mesmo - isso, claro, sem contar o fato de que durante uma semana fiquei muito triste por causa dessa pessoinha por quem estive apaixonado. Também já é passado esse fato, portanto nem vou me estender sobre ele. A minha justificativa para o meu desaparecimento da internet por esses dias é simples e atende pelo nome de "preguiça". Lo siento, cariños, pero es lo que hay.

Opa!! Eu estava sendo injusto e esquecendo uma coisa MARAVILHOSA, ESTUPENDA e FANTÁSTICA que me aconteceu: ao menos eu reencontrei aquele meu ex-namorado do passado remoto e falamos por 4 horas! Eu acreditava que fosse ser uma conversa tensa e mascarada, mas estava enganado. Nosso papo foi fluido, sincero, pude olhá-lo de novo com calma e pensar no quanto gosto do que a gente compartilhou quando namorávamos. Por mais que eu já tivesse o assunto bem resolvido na cabeça, foi incrível poder dizer-lhe o que sentia e pensava sobre nossa relação passada. Eu acho que devo fazer isso mais vezes na vida, e recomendo a todos que façam o mesmo. Quando nutrirem um sentimento confuso por alguém, sentem-se com a pessoa e esclareçam. Isso, óbvio, se ela estiver aberta a uma conversa franca e positiva. Como nós dois estávamos naquele momento. Senão, deixem que o tempo resolva por si só, comigo levou 8 anos para que esse diálogo se estabelecesse! Sim, eu sou o rei da paciência, embora às vezes eu não creia nisso.

Bueno, pois eis que chega o carnaval. Aqui em Barcelona, eu imaginei que fosse ser um marasmo só. Famosas mesmo são as festas de máscaras de Veneza e eu sinceramente acreditei que só na Itália rolasse um carnaval animado, além do Brasil, é claro. Pois felizmente eu estava enganado. Ainda que seja de uma alegria tímida e respeitosa, os espanhóis até que sabem fazer auê. Barcelona tem um calendariozinho de atividades para a ocasião, mas o local mais famoso pra curtir isso, por ser o reduto dos gays locais (por supuesto!), é Sitges.