lunes, 26 de mayo de 2008

Eu mudei

Oi pessoas queridas. Faz muito tempo que não escrevo nesse blog, alguns até acharam que o pobrezinho tinha morrido. Mas não, aqui estou eu escrevendo e ele sendo recheado novamente com minhas palavritas. Esses últimos meses foram uma correria, mas hoje em particular estou com tempo para escrever, então vamos lá.

Muitas mudanças aconteceram desde que escrevi meu último texto aqui no blog. A mais importante delas é que ontem precisamente eu mudei de casa. Pois é, mudei por vários motivos. Um deles é que não podia mais com Pablo. Não que tenha sido uma convivência traumática, longe disso, mas sabe aquelas pessoas que não acrescentam nada à nossa vida e mesmo assim temos que olhar na cara todo santo dia? Ai, não dava mais. Ele me irritava nas mínimas coisas, e creio que a mais chata é que era detalhista com assuntos inúteis, como a louça que não havia sido retirada do escorredor (mesmo que estivesse molhada ou que mais pessoas com braços e mãos em perfeito estado e tempo disponível também pudessem fazer isso, mas não o faziam), o lixo que não havia sido posto na rua, etc. Eu sou organizado e portanto acabo arrumando tudo a minha volta (ou ao menos tentando), então tem gente que se aproveita e deixa tudo a meu encargo. Aí quando eu percebi que eles faziam corpo mole na limpeza do apartamento esperando chegar a minha vez para que eu desse a geral, me irritei e decidi acabar com a folga. Aliás, por que vocês acham que brasileiro que vem pra cá fazer faxina geralmente ganha uma nota preta? A gente arrepia na limpeza e eles notam.

Então ontem dei meu grito de liberdade (assim, tal qual os eternos escravos das novelas das seis da Globo). Juntei meus pertences e saí correndo daquele lugar. Só não saí mais rápido porque estava carregado de roupas, livros e… lixo! Como a gente consegue juntar tanto lixo, me digam! Eu armazenei durante todos esses meses de máster catálogos de editoras e agentes, postais de propaganda, fitinhas de Sant Jordi, tanta porcaria! Agora, conforme for arrumando meus objetos na casa nova, metade vai pro lixo com certeza. E há livros que quero doar, porque fomos ganhando no curso alguns títulos daqueles que encalham nas livrarias e o povo das editoras, não sabendo o que fazer com eles, os dá aos pobres alunos esfomeados dos másteres. Enfim, não lerei, por tanto farei a boa ação de doar-los.


Além dessa mudança drástica, outra coisa que me aconteceu nesse meio tempo foi estagiar no Parlamento da Catalunha, de onde escrevo nesse momento. É o lugar onde se fazem e modificam as leis que rege essa província, e para os espanhóis trabalhar no Parlamento da Catalunha tem o mesmo peso de estagiar na Casa Branca para os norte-americanos. Aqui maqueto os diários de sessão do Plenário, ou seja, pego o texto que os transcriptores das sessões registram e passo para o Indesign, um programa que me permite editar o arquivo para depois mandá-lo à gráfica e colocá-lo na web. Caso algum de vocês tenha a mínima curiosidade de conhecer o parlamento, segue abaixo o link da instituição:

http://www.parlament.cat/portal/page/portal/pcat/IE00

Nem sei ao certo como consegui essa vaga. Havia um montão de gente louca pra conseguir o posto (na Espanha pega muito bem ter no currículo a informação de ter trabalhado em órgãos públicos, ainda mais um dessa importância), e com a fila de catalães que queriam vir pra cá, eu passei na entrevista! Enfim, até hoje não sei bem como me aconteceu isso. A pena é que eram somente quatro meses de estágio, e agora falta só um. Sentirei saudades daqui, todos são gentis, educados e fofos. Sem contar que o local onde trabalho é um palácio, com direito a poder olhar para aqueles lustres maravilhosos que só se vê em castelos, escadarias com tapete vermelho e tudo mais! Um luxo.

Já sinto muita saudade do Brasil, e ela me pega em momentos esdrúxulos. Tipo outro dia estava lendo um blog de fofoca e alguém dava um link direcionando para um vídeo de erros de jornalistas no youtube. Era o William Wack falando incorretamente o nome de uma correspondente de Brasília. Depois dele, haviam erros de outro William, o Bonner, mais Fátima Bernardes e Ana Paula Padrão. Esses minutos que passei revendo alguns telejornais me deu uma vontade louca de chorar, tanto que tive que ir pra cama para não entrar em crise. Não que eu já queira voltar, mas tem coisas que em nenhum outro lugar do mundo se consegue reproduzir como o que temos em nossa casa, ou pelo menos não de imediato.

Os amigos me fazem muita falta, principalmente porque posso falar português aqui com raríssimas pessoas. Os únicos brasileiros com quem me identifico estão ocupados com seus estudos, trabalho ou namorados a maior parte do tempo, como seria aí no Brasil. E há aqueles que vêm pra cá só pra ganhar dinheiro e com os quais em geral não tenho nada a ver. No fim acabo falando castelhano e catalão 95% do meu tempo. É como seu eu tivesse criado uma outra versão de mim, já que a língua é de modo geral um fator forte para dizer quem somos e como pensamos. Pode haver um certo exagero nessa minha afirmação, mas não duvidem que a língua pesa muito na nossa vida.

Também me dilacero de saudades dos meus pais, óbvio. E saber que os meses passam e cada dia passado é tempo a menos que desfrutarei com eles me dá tristeza. Agora que estou fora, tudo o que me acontece sinto com intensidade triplicada, pois não tenho o apoio presencial dos meus pais. Eu demorei para vê-los e conversar com eles através da câmera do Skype, fiz isso ontem e me parece que foi pior. Sabe o ditado “o que os olhos não vêem o coração não sente?”. Eu tenho um problema brutal com a velhice. Perceber que eles avançam para a morte é dificílimo para mim, ainda que eu saiba que eles estão saudáveis, ativos e felizes.
Mas o intuito desse texto não é passar uma mensagem triste a vocês. Ao contrário. Meu sonho de viver aqui continua sendo um sonho, talvez um pouco mais desbotado com o esmorecimento natural que o cotidiano nos proporciona e com as dificuldades que alguém enfrenta ao estar no exterior. O que mais me surpreende é acordar todas as manhãs e perceber que meu entorno está diferente, que o mundo no qual estou submerso agora há um ano simplesmente não existia (para mim, porque ele sempre esteve aqui para os outros), e que a gente tem o poder de fazer o que nos dê na telha, desde que realmente queiramos. E preciso focar nessa idéia para um novo desafio ao qual me proponho nesse momento, sobre o qual explicarei num próximo post. Mandem notícias quando puderem e cuidem-se!