Leo é um garoto bonito de 23 anos. Tem cabelos e olhos muito negros, sobrancelhas marcantes, boca carnuda. Sua fisionomia lembra um pouco a dos orientais, com os olhos levemente amendoados. Os cabelos estão sempre bem penteados e para cima, com pomada, num estilo moderno. Seu rosto é largo, forte, masculino. Além disso, tem corpaço, pois malha 4 vezes por semana e se alimenta de forma saudável. Sua barriga, embora não tenha gominhos, é chapada. Ele se esforça para manter o peso em equilíbrio, já que na infância foi gordinho e usava óculos de armações enormes. Era o bicho feio da família, em quem ninguém apostava um níquel. Aos 15 anos começou a correr e ganhar prêmios depois de vencer algumas maratonas. Isso lhe deu gás para elevar a auto-estima. Com 18 anos, seu pai lhe disse que precisava dar um rumo em sua vida e assim ele o fez. Conseguiu uma bolsa de estudos para cursar Filosofia na Europa, mudou-se da Colômbia, partiu com apenas uma mala de 40 kg e € 70 no bolso. Estudou na capital, não gostou do curso, foi pra Benidorm no verão, trabalhou como bartender, começou a malhar, esculpiu o corpo e dançou na noite. Fez uma grana, se tornou um cara desejado e mudou-se pra Barcelona. Hoje faz Turismo numa faculdade de luxo, e seu calcanhar de Aquiles é falar inglês, idioma que não domina mas que é imprescindível na sua carreira. Apesar disso, mora num apartamento bem localizado, trabalha em escritório, tem seu celular e um guarda-roupas abarrotado de marcas famosas.
Pablo é venezuelano. Tem 30 e poucos anos e trabalha numa empresa fabricante de chocolates e pasta de amendoim. É coordenador de marketing e vendas. Decidiu sair da Venezuela há 4 anos, quando Hugo Chávez, que considera um primata, tomou o poder em seu país. De lá pra cá ficou ilegal por muitos meses, distribuiu panfletos na rua, entregou pizza e viu suas economias sumirem da conta bancária, transformadas em caros euros. Depois de trabalhar 11 horas por dia na pizzaria, conseguiu ser efetivado e contratado como residente, deixando a ilegalidade. Fez tudo isso apoiado por William. Eles se conheceram num bar gay de Caracas, quando Pablo estava devastado pela morte de Jesus, seu parceiro anterior. Ambos namoravam e estavam bem, até que Pablo começou a sentir dores ao urinar, e Jesus dizia que suas pernas formigavam. Eles não deram importância às dores, até que o primeiro percebeu que havia sangue misturado à sua urina quando ia ao banheiro, e o segundo viu o formigamento transformar-se em dores que o impediam de andar. No mesmo dia decidiram ir ao médico, e no mesmo dia descobriram que um estava com câncer na bexiga e o outro com leucemia. Em uma semana Pablo foi operado para realização da cirurgia que lhe permitiu retirar o tumor, enquanto Jesus foi internado no hospital para sessões de quimioterapia. Depois de 7 dias da remoção do câncer, Pablo não agüentou e foi como pôde visitar Jesus. Naquela tarde em que estiveram no hospital, ele percebeu que o companheiro tinha uma ferida de grande extensão no pescoço, cheia de sangue pisado. Aquilo lhe comoveu muitíssimo, pois sabia que não sobreviveria. Assim, trocaram juras de amor e se despediram. Jesus faleceu naquela mesma tarde, duas semanas depois de detectada a leucemia.
Já William, que também é de Caracas, conheceu Pablo num bar, onde este foi tentar desanuviar a cabeça na época do luto. Já não sentia dores na bexiga pela retirada do tumor, mas estava devastado pela morte do companheiro. Pablo estava alheio ao que se passava no bar, mas o outro foi incisivo e fez de tudo para conhecê-lo. William é assim porque tem em seu histórico a carreira de militar. É um cara fechado, um tanto crítico e quase nada complacente com os erros alheios. Não é de muito papo. Também decidiu vir pra Espanha com a vitória de Hugo Chávez para presidente da Venezuela. Hoje trabalha em um supermercado popular, e deseja requerer a cidadania espanhola junto ao companheiro.
Katia por sua vez não precisa mais requerer cidadania. Ela é tanto brasileira como italiana por conta de sua ancestralidade, e trabalha como garçonete num restaurante moderno no Raval. Chama muito a atenção por sua pele naturalmente bronzeada, seus cabelos loiros e seus quadris opulentos. Ela é muito sexy e, por saber que essa sensualidade toda pode lhe gerar problemas no ambiente de trabalho, como cantadas indesejáveis, tem uma postura bastante séria e compenetrada, o que não afeta a educação e simpatia com que trata a todos. Ainda assim, os clientes babam nela, porque é o tipo de mulher vulcânica que faz qualquer homem menos seguro tremer nas bases quando ela os mira. Katia divide apartamento com uma italiana e outros brasileiros, entre eles uma chamada Silvia.
Silvia é uma menina muito na dela. Chegou à Espanha querendo estudar e, se tudo desse certo, migrar de vez para o país. Apesar de desenvolta, é reservada. Discreta, quase não usa acessórios, o que não a impede de ser bonita. A plasticidade que não aplica à própria aparência, porém, é desenvolvida no ambiente doméstico e nas tarefas que executa no dia a dia: é artista plástica. Ela enfeita luminárias de papel como ninguém, decora a casa com maestria, e consegue fazer de um simples origami um adorno inesquecível para embelezar qualquer ambiente. Foi ela quem convidou e deu força a um outro amigo brasileiro que estava em dúvida com sua vida para ir à Barcelona. E foi lá que tanto ela conheceu Alessandro quanto ele conheceu Cristóbal e Ivan.
Alessandro é um italiano de pele muito clara e olhos turquesa. Se está numa reunião com muita gente falando ao mesmo tempo, fica tímido e se cala. Quem o vê ao longe não consegue formar uma opinião específica sobre ele ou o classifica simplesmente como simpático e educado, mas quem o conhece razoavelmente sabe que tem um coração gigante e disposição de sobra para ajudar quem precisa. Também é um cozinheiro de mão cheia, e só prepara pratos que sejam ao mesmo tempo saborosos e saudáveis.
Já quem não tem nada de cozinheiro é Cristóbal. Ele é a cara do Alec Baldwin, e tremendamente bon-vivant. Não sabe cozinhar e é junkie. Adora uma balada e se entupir de drogas. É fã incondicional de poppers, principalmente para fazer sexo, ainda que nem todos seus parceiros curtam fazer o mesmo. Por sua pinta de rico conseguiu se infiltrar no meio televisivo de seu país de origem, o Chile. Viajou o mundo todo nas asas da fama, conheceu Rod Stewart, Julia Roberts, falou ao vivo com Madonna na entrega de um prêmio de música. Chegou a ganhar 50 mil dólares de salário, mas como é porra louca, torrou tudo em boa vida. Trocou os holofotes da TV por uma carteira de clientes de luxo em uma imobiliária de alto padrão. É indiscutível o seu bom humor e descaramento mesmo nas situações mais adversas, e ainda desfruta de privilégios da época de famoso. Quando conheceu o amigo brasileiro de Silvia, estava com a pele torrada de uma viagem que havia feito a Dubai, a convite de um amigo empresário. Tentou de todo modo conquistar o amigo da moça, mas quem chegou mais perto foi Ivan.
O holandês Ivan é produtor de casting de um teatro de Barcelona. É loiro, alto, de olhos muito verdes e pele dourada. É daquele tipo de nórdico que adora tomar sol, mas só pra dar uma corzinha e ficar com cara de saudável. Tem pele de veludo e atribui isso à quantidade de água que toma por dia, que nem sabe quanto é mas pode-se medir em galões. Mora sozinho num apartamento perto da praia, que foi decorado por uma arquiteta e é todo clean. O quarto, por exemplo, é muito branco e aconchegante. A cozinha tem equipamentos de metal que parecem industriais, o banheiro é forrado com pedras planas de cor verde acinzentado que absorvem a água. Tudo parece estar em perfeita comunhão com a natureza, muito calmo e aconchegante. Assim como seu apartamento, Ivan também é calmo, e chega a ser frio de tão tranqüilo. Ele conheceu o amigo de Silvia em um site de relacionamento, dormiram juntos por duas noites, e depois se despediram sem grandes expectativas. O brasileiro, que vive no mesmo apartamento de Leo, foi para casa pensativo e um pouco pesaroso.
Leo, apesar de bonito, inteligente, trabalhador e muito gostoso, também é bastante só. Decidiram tomar um café juntos, o colombiano e o brasileiro, para falar de suas dores de cotovelo e começaram a raciocinar em conjunto para tentar encontrar uma pista sobre o paradeiro do parceiro ideal. A eles pareceu um contrasenso que Pablo, tão sensível por tudo que lhe ocorrera na vida, topasse viver uma relação de oito anos com William, que é um militar por formação e um tanto insensível (ao menos aparentemente). Especularam que talvez eles não fossem felizes por serem tão distintos e ainda estivessem juntos por conveniência. E Silvia e Alessandro? Seria fácil para eles permanecerem unidos porque são semelhantes? Mas se a semelhança de estilos une os casais, porque uma possível vida futura com Ivan parecia tão menos colorida que com Cristóbal? E Leo, porque continuava sozinho? Assim como ocorre com Katia, ele exala sensualidade e há muita gente que morreria para ficar com ele. Por outro lado, por sua aparência, ninguém chega junto deles e os que chegam não os levam a sério. Então qual seria a fórmula que atrai os casais, e o que os mantém juntos? Existiria uma fórmula?
Chegaram à conclusão de que fórmula mesmo não existe, pois se existisse já haveria alguém por aí muito rico de ganhar dinheiro com ela. Tanto o colombiano quando o brasileiro concordaram que, saindo com todo mundo ou ficando em casa, o importante era se manterem retos em suas convicções. Que melhor que optar entre o preto ou o branco, bom mesmo é o cinza, que tem várias tonalidades que dá pra variar conforme o dia e o humor. E enquanto tomavam o café e riam às custas dessa tentativa inútil de descobrir fórmulas, os telefones de ambos vibraram com convites para almoço e festa, e pensaram que importante mesmo é alimentar a esperança com muito chocolate e deixar a vida te levar, pois ela é breve e não dá pra perder tempo com conjecturas sem respostas.
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2 comentarios:
aqui no país tropical também estamos às voltas para descobrir qual a fórmula... se vcs tiverem mais sorte aí no velho continente, não deixe de compartilhar com o povinho tupiniquim! :9
sensacional!!!
pra mim o importante é conseguir isolar o que é seu das idéias alheias. cada um é feliz de uma maneira, mas é preciso saber qual é a própria maneira.
essa é a minha fórmula, e eu ainda estou fazendo os cálculos...
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