lunes, 11 de febrero de 2008

Sobre o que é transitório

Vocês sabem que eu adoro escrever textos engraçados e fazer as pessoas rirem, porque eu também adoro rir. Não tem preço pra uma boa gargalhada. Mas o fato é que nem sempre eu acho graça na vida, ou melhor, tem momentos em que vejo como é difícil viver. Principalmente quando defronto com mudanças: tenho pavor delas. Das mais singelas às radicais, elas sempre me assustam. Na realidade temos uma relação dialética, porque ao mesmo tempo em que me deixam com o coração na boca, as situações de mudança em que me coloco ou em que o destino me coloca também me atraem e instigam.

Pois eis que o Leonardo está de mudança. E conseqüentemente estou também. Em breve terei um novo companheiro de piso e tudo recomeçará, a adaptação a novos hábitos, ter alguém diferente pra dividir os medos, ansiedades, saudades e alegrias. Ou não. Eu também não sei por quanto tempo permanecerei aqui.

Tem dias em que me olho no espelho e me sinto feio. Em outros me dedico a me observar de verdade, não com a frivolidade de quem lê revistas de moda, mas me encaro profundamente e admiro quão lindo e perfeito é o corpo que tenho. Miro o negro das pupilas e pergunto o que há por detrás delas, o que me torna quem eu sou, vejo o modo como meus dedos se dobram, a pele se estende, na anatomia perfeita e provisória que me compõe. Me pergunto até quando serei matéria digna de admiração, em que ocasião meu corpo deixará de ser máquina, se tornará um estorvo, padecerá da ação do tempo, sucumbirá em fendas que libertarão a minha alma para a Luz. Estarei de volta à terra, virarei pó e depois nada.

Me entristeço em saber que um dia isso acontecerá, porque vejo-nos tão perfeitos e a um só tempo tão efêmeros. Os únicos registros que temos dos que vieram antes de nós são em sua maioria objetos bidimensionais, retratos, filmes em tela, e há outros ainda menos palpáveis, como gravações de voz que nos sopram aos ouvidos. Mas haverá o dia em que mesmo esses documentos desaparecerão para dar lugar a outros de outros de nós, que perpetuarão de alguma forma a beleza de nossa raça. Porém nunca mais serão nós mesmos. Se apoderarão das nossas descobertas e seguirão um rumo mais à frente, mas o que descobrirem não nos pertencerá como no primeiro caso.

Eu me detenho em cada pequeno detalhe do que vejo. Tento memorizar tudo na máquina fotográfica dos meus olhos, que é a mais exata que existe. Já tentei com a câmera igualar nas fotos as cores que vejo na realidade, mas há aquilo que só os meus olhos vêem, porque estão atrelados à alma. Tem imagens que eu penso que ficarão impressionantes no papel, mas que me desapontam depois de passar pelo engenho da câmera. Não sei em quantos lugares voltarei nem se voltarei, se minhas janelas estarão novamente abertas naquela direção, se a cintilância de outra ocasião ajudará, mas de todo modo as circunstâncias jamais serão as mesmas. Isso me alegra e entristece: nunca mais nada será igual.

Há dias em que, comendo na cozinha, me surpreendo absorto nos ímãs colados na porta da geladeira. Quero me certificar que existiram, que eu me detive a eles, pois é a única maneira de saber que eu estive ali. O cheiro que sobe do pátio interno também é muito peculiar. Sempre que eu estendo roupas na janela de onde posso vê-lo, sinto o mesmo cheiro de lugar fresco que nunca foi tocado pelo sol. Não o classificaria de bom ou ruim, apenas de algo que jamais senti no Brasil. Há cheiros que só existem na Europa, e outros que só em terras brasileiras se podem notar. Como cada experiência minha aqui se pretende ser única, tento me fixar ao máximo nos detalhes, para que não me escapem.

Fico feliz que Leonardo se vá. Ele pretende passar 2 meses na Colômbia, pra depois regressar à Espanha. Quando fala de seu país, seus olhos faíscam e sua aura se dilata. A dor da saudade é visível no descompasso dos seus atos quando o tema são as ruas de Bogotá, a casa de sua mãe, o irmão loiro tão diferente dele. Sua voz se embarga e ele dá pulos feito menino. Tem uma hora em que não dá pra agüentar mais, nenhum corpo suporta a distância do seu eixo por tanto tempo, com tão pouca idade. Ou ele volta ao seu eu original, ou se embrutece definitivamente, ou seu corpo se rompe para dar vazão à alma desgarrada do contexto.

Melancólico, eu volto ao espelho e me observo com calma novamente. Os olhos cor-de-mel são iguais aos de minha mãe, a palidez da pele no seu entorno também. A sinuosidade do queixo vem do meu pai, bem como a forma das mãos. São tantos traços, tão complexos e sabiamente ordenados. Passeio pelo apartamento questionando o calor que faz para o inverno europeu, me lembro da temperatura incomum que assola o Brasil nesse verão. Meus pés voltaram a estourar por conta da acidez. Olho pela janela e uma mulher me fita de outra varanda, enquanto traga um cigarro. Me pergunto o que ela vê pela vidraça embaçada do meu quarto. Me pergunto se nota que eu chorei. Me pergunto onde está minha casa.

4 comentarios:

li.scutti dijo...

os detalhes te escaparão, assim como a vida. é inevitável. o que se pode evitar é viver sem notar e vc, espontaneamente, já o faz.

sua senbilidade é admirável. adorei o texto.

lau2m dijo...

é amico, quando a gente sai de uma casa pra fazer outra casa, assim tão do outro lado do mundo, a gente perde a referência... o mundo encolhe, não? acho que casa é onde a gente bota a nossa vida... por isso a Errpaña é minha casa, com certeza.

Juliana dijo...

huahauahua... ai ric, esse do preço da edição eu nem lembrava mais! :P daí devem ter vários micos que passaram despercebidos sem você aqui! olha a falta que você faz! :D beijos chuvosos da terra da garoa! (E ATUALIZA!!!)

Fárlley dijo...

Querido
Você sabe que não sou uma pessoa de fé no sentido religioso da coisa. Mas uma das poucas coisas que acredito é que nossa visão da vida é muito limitada. Não faço a menor idéia do que há 'do outro lado' mas acho que morrer deve ser uma experiência fantástica! Estou ansioso pra descobrir, só não quero furar a fila, hehehe!
Pense nisso!
Beijos