lunes, 16 de junio de 2008

Killing monday

Hoje eu acordei com tanta dor de cabeça que tudo me irrita. Embora esteja no Parlamento, que como já disse é um palácio maravilhoso num parque exuberante dentro de Barcelona, parece que há uma conspiração de todos os animais para não me deixar em paz.

Eu não contei a vocês, mas o Parque da Ciutadella fica ao lado do jardim zoológico da cidade. Então, claro, eu ouço todos os sons dos bichos que vivem lá, desde os mais gulturais aos mais estridentes. Eles todos descobriram de alguma maneira que minha cabeça retumba alucinadamente para fazer muito alvoroço. As cratatuas (ou seja lá como se chamam, só consigo chamá-las dessa maneira no momento) estão piando surtadas, as gaivotas decidiram fazer uma reunião no telhado do Parlamento, os gatos estão esfomeados e miam incessamente por comida, os passarinhos revoam se perguntando, todos ao mesmo tempo, para que lado vão. Até um barco de turismo, que eu nunca tinha visto tão próximo da orla como hoje, decidiu mostrar a todos os habitantes barcelonenses que está chegando repleto de turistas felizes, e apita pesadamente.

Nesse dia belo e ensolarado, se eu tivesse dotado de uma bazuca potente, seria o primeiro serial killer de animais da história do mundo a matar um maior número de espécies diferentes por metro quadrado. Embora tudo me remeta a um cenário paradisíaco (ruído de gaivotas, barco, brisa chacoalhando de mansinho as folhas das árvores), para mim parece que os animais estão todos histéricos e um transatlântico anfíbio assassino irromperá dentro do parque para aniquilar os representantes da raça humana que trabalham no Parlamento da Catalunha. Vou pra casa tomar um remédio matador para aniquilar a fanfarra que toca sem parar no meu cérebro. God save Neosaldina forever.

miércoles, 11 de junio de 2008

Houve uma vez um verão

Todas as fogueiras, palitos de fósforo e velas que já foram fabricadas e ainda serão queimando ao mesmo tempo e em um só lugar.
Uma cadeia formada por todos os vulcões do mundo escarrando sua lava de milhares de graus até esgotar-se o limite máximo de rocha líquida que há no centro da Terra.
A junção de toda a energia nuclear produzida pelas usinas do planeta explodindo em massa única de calor.
Todos os sóis e estrelas pertencentes à coleção de Deus colocadas numa caixa fechada de zinco.

Toda essa quentura descrita aí em cima é o que me vem à cabeça quando gente de todas as partes – inclusive brasileiros - me conta como foi o verão de 2003 (ou 2004? Foi um verão a que todos se referem como “houve um ano...”, ao menos sei que é recente) aqui em Barcelona. Dizem que usualmente nessa época o asfalto vira uma chapa quente (alguém aí pensou em Rio de Janeiro?) e a cidade se torna uma sauna a céu aberto. Eles então amaldiçoam para todo o sempre o inventor da roupa e invejam ardentemente Adão e Eva, que caminhavam por aí com seus dotes quase a mostra – e bem fresquinhos.

Até o momento eu tive um pequeno vislumbre do que é o calor de verão na Catalunha. A primavera européia é úmida, mais úmida que um brejo matogrossense, ou mesmo que as partes baixas da Cicciolina antes de rodar um filme. Eu, que sempre fui avesso a guarda-chuva, tive que adotar um para não chegar em casa encharcado depois das aulas do máster. Confesso que só o fato de não ter que colocar um casaco pesado já é um alívio, mas calor mesmo, até agora só de brinde. Dizem que eu me arrependerei de dizer a todo momento “quero calor, quero calor”. De qualquer forma, estou seguro que o clima do inferno deve ser bem mais sugestivo que a inocuidade do paraíso.

domingo, 8 de junio de 2008

Em Lyon com Kylie Minogue

Eu adoro viajar. Desde sempre, desde que o mundo é mundo, desde que me conheço por gente. Então vivo buscando motivos para conhecer lugares diferentes. No mês passado, a razão que eu encontrei foi ir ver a Kylie Minogue na França. Sua turnê não previa qualquer passagem por Barcelona, então eu teria de ir a outro país para vê-la. Antes, um breve comentário sobre a passagem dela pela Espanha.

Eu sabia que ela viria para cá, então porque não ir vê-la em Madrid? Seria mais barato, a capital é logo ali e eu já conheço a cidade, assim nem me perderia. Acontece que há algum tempo eu conheci um menino pela internet. Na conversa sobre artistas pop, me disse que curtia a Kylie e que iria vê-la no Palácio de Esportes de Madrid. Porém... ele me contou que nunca teve muita sorte no que se tratava de Kylie Minogue. Tentara vê-la duas vezes: uma aqui em Barcelona, há muitos anos, e outra na Irlanda. Nessas duas ocasiões em que esteve a um passo de assistir seus shows, ambos foram cancelados. Na primeira vez, ela teve um problema de saúde x que a impediu de vir. Na segunda, foi o câncer que a fez anular algumas apresentações de sua turnê. Depois de me contar a história, ele se virou para mim e perguntou: “Você acha que foi má sorte minha?”. Eu respondi (pouco convencido da minha própria resposta): “Nãããoooo, imagina!”. Sabendo desse pé-frio histórico dele e que dessa vez esperava ver a cantora em Madrid, preferi não arriscar, não é mesmo minha gente? Além do mais, era um motivo para eu voltar à França e conhecer Lyon. Pois para lá rumamos eu e Javier - que eu conheci depois de ter o casinho com o tal azarado - na sexta-feira passada.

O tempo estava duvidoso, mas já tínhamos tudo comprado, passagem aérea, hotel reservado, ticket para o show, então nos enchemos de coragem e fomos. Chegamos em Lyon e chovia, básico. Felizmente, o tempo ficou entre o chuvoso chato e o quase ensolarado agradável. O tempo na Europa durante a primavera é instável: pode chover a qualquer hora do dia, venta muito, e fica aquele sol intermitente atormentado por nuvens que passam rápido. Em 2006, quando estava de férias em Paris nesse mesmo período do ano, foi infernal. Virava e mexia fechavam as praças e parques porque era vaso de flor voando para um lado, areia nos olhos do povo para outro. Dessa vez, além desse clima pentelho, os franceses estavam mais grossos do que eu jamais havia visto em minha vida. Na verdade, foi a junção dos opostos: ou os atendentes eram de um amor exagerado com a gente, ou nos tratavam a pontapés verbais. Eu também libertei meu lado faça-seu-trabalho-direito-que-eu-estou-te-pagando-pessoa-estúpida!, e ficamos quites. Tirando esses fatores, a viagem foi bem legal. Sem contar que eu amo viajar com o Javi porque é o tipo de companhia que topa qualquer programa, por mais de índio que possa parecer.

Lyon é linda. Dois rios cortam a cidade e eu não posso com lugares com água no meio! É uma pena que no Brasil, muitas vezes quando há um rio em uma região, ele vira esgoto a céu aberto. Basta haver uma tormentazinha em São Paulo e o Tietê se transforma num catálogo de embalagens vazias. Todos que moram ali já viram esse fenômeno. Sem contar o delicioso perfume que o pobre Tietê exala nos dias de verão. Os fabricantes de ar-condicionado para automóvel adoram! Voltando a França, o Ródano (será que é esse nome que adotamos para o rio em português? Bom, para que conste, o Rhône em francês) é majestoso, com sua correnteza forte e sua cor verde prateada. Além dele, passa pela cidade o rio Seône (?), e há um ponto em que os dois se emparelham e se forma uma ilhazinha no centro de Lyon, assim como acontece em Paris. É um local de sonho. A cidade velha, na margem esquerda dos dois rios, também é imperdível: boêmia, tem barzinhos e restaurantes que lotam de gente bonita, jovem e rica (porque se não for rica não tem como comer e beber ali, já que tudo é carésimo). Enfim, adoramos.

Sobre o concerto de Kylie Minogue, bem... Eu sei que tem gente que vai ler isso e querer me matar em seguida (com a distância, vai rolar uns vudus com a minha cara no Brasil, já antevejo), mas como essa mulher é cafona! Eu gosto de suas músicas, seu último CD está bacana, mas é um tal de tentar ser fashion que não tem limite. Figurino show de horror: teve música lenta a la Céline Dion, ou seja, cantando baladinha com vestido de formatura, inaceitável. Cabelo de Dercy Gonçalvez só é bonito para a própria atriz tupiniquim, que nenhuma cantora australiana tente copiar, por favor (leia-se “cabelo de Dercy Gonçalves” por coque banana com franja despenteada, como Madonna também leva na capa de Hard Candy – pavoooorrrrr!). E as manias robóticas de Kylie? Gente, ela começa o show vindo de uma teia eletrizada, cantando Speakerphone, que é uma canção cheia de efeitos eletrônicos... Tenho medo. Mas claro que, felizmente, também tem partes bem boas: um número em que ela canta Copacabana (nem sei se é esse mesmo o nome da música, aquela que começa com “Her name was Lola, she was a showgirl” e cujo refrão é “In Copacabana they fell in love, pa pa pa rá, Copacabaaaannaaaa!”). Ainda rolou In my arms, que eu qusase voei no teto para pular com a galera. Enfim, o saldo da experiência foi positivo. Agora é esperar para ver a Sticky and sweet tour da Madonna. Como o álbum está meia-boca, espero que pela menos ela arregace no show.

Bom gente, mas o “melhor” da viagem estava por vir... Nosso vôo saia às 9h45 de segunda-feira. Estávamos podres da noite anterior, em que fomos pra cama às 3h e pouco. Teríamos que acordar às 7h, ambos colocamos os celulares para despertar nesse horário. Mas eis que segunda-feira chega, chove lá fora e aqui faz tanto frio.... Imagina se os dois preguiçosos não quiseram ficar dormindinhos até um pouco mais tarde? Quando nos demos conta, já era 8h20. Nos vestimos voando, fizemos um check-out relâmpago, saltamos pra dentro do metrô, nos jogamos no ônibus que nos levava ao aerorporto, mas.... segunda-feira é segunda-feira em qualquer lugar do planeta. Nos esperavam nessa ordem chuva, trânsito lento, gente sonada e mal-educada em todas as partes, aeroporto de Lyon minúsculo em reforma e mal sinalizado, caminho entre o Terminal 1 de desembarque (onde o motorista do ônibus gentil e educadamente nos deixou, claro) a 300km sob chuva constante do Terminal 2 de embarque, excursão com 800 velhinhos portugueses voltando para Lisboa para passar no raio-X antes de nós. Resultado: praticamente bateram a porta do único vôo da Easyjet (a companhia aérea mais barateira que havia nos levado à França) na nossa cara, na frente de uma multidão que ia para outros destinos. E nós, com nossos narizinhos vermelhos de palhaços, fomos buscar informação sobre outros vôos para Barcelona.

Bom meu povo, Lyon não é Paris. As únicas opções que tínhamos para voar, além da Easyjet que só tem um vôo diário Lyon-Barcelona, era a Air France, que nos sairia por 500€, ou a Iberia, por 1.000€. Em suma: a solução viável era voltar de trem ou ônibus. Aproveitamos que os trens saiam do aeroporto Saint-Exupéry, onde já estávamos, para ver se algum ia rumo ao sul. Nenhum. Todos se destinavam à capital ou ao norte do país, então a única saída era mesmo pegar um bumba.

Vocês podem pensar que o único problema de pegar um ônibus na Europa é – como em qualquer lugar do mundo - a distância, correto? Errado. Aqui viajar de avião é beeem mais barato que no Brasil, logo todos preferem voar ou ir de trem. Quem toma ônibus é ou o passageiro de última hora que não conseguiu encontrar um vôo barato de maneira alguma (nosso caso) ou imigrante (dos bálcãs, dos países árabes ou da pqp mesmo) sem dinheiro que não tem um puto furado. Sem querer ser preconceituoso e já sendo, tomamos o bumba com um monte de gente peba, sem contar que o local fedia, os bancos estava com alguns pontos rotos, tínhamos que brigar com o motorista para que ele ligasse o ar-condicionado, e um último detalhe que deixo para vocês apreciarem no video abaixo. E ônibus na Europa pára em todo e qualquer recôncavo mais reconcavado, reconvexo mais reconvexado, de modo que depois da Kylie fazer sua tour mundial, foi a nossa vez de excursionar pelo sul da França.

“Conhecemos” Valence, Orange, Avignon, Nîmes, Montpellier, Béziers e Perpignan, até passar pelo norte da Espanha e chegar em Barcelona. Ao todo foram onze horas de diversão ininterrupta – e de bunda quadrada. Isso sem contar que cada um gastou 100€ a mais do que o previsto, e quando chegamos às 3h da manhã de terça-feira à estação de Sants, em Barça, descobrimos que a querida também estava em reforma, tivemos que dar a volta ao mundo para chegar em casa, caminhando com malas nas costas de madrugada, chovendo. Agora nossa piada interna é “para onde vamos de ônibus da próxima vez”? Pensamos nos destinos mais insólitos, como Nepal, Índia ou China. Dizemos que quanto mais longe, mais divertido será. Basta ver nossas caras no vídeo para saber que nossa turnê foi tuuudoo de bom, e que estamos contando as horas para repeti-la.