martes, 8 de julio de 2008

Feliz ano novo (de mentira)

Conforme vai amanhecendo o dia, se pode ouvir os estouros de bombinhas das crianças que brincam animadas na rua. Há clima de festividade no ar, as pessoas se preparam, dormem à tarde para estar animadas para a noite, compram fogos de artifício, se vestem de branco e se atiram ao mar à meia-noite. O calor é forte e todos usam roupas leves. Querem boas vibrações.

Quem lê esse texto tem certeza absoluta de que eu estou descrevendo o 31 de dezembro de qualquer ano em Copacabana ou em outro lugar do Brasil, certo? Errado. Na verdade, essa é a preparação dos catalães para a Festa de Sant Joan. O evento deles acontece na mesma época que o nosso, também tem fogueira e muito barulho de bombinha, mas algumas diferenças básicas.

A primeira delas é que se nós, como ultra católico que somos, celebramos o dia de São João, eles comemoram o solstício de verão. Pra quem cabulou aula de geografia como eu (que agradeço o apoio da Wikipedia para escrever esse texto), explico: o solstício de verão é o dia em que o sol atinge sua maior declinação em latitude medida a partir da linha do Equador (oohhh!), em termos práticos é dizer que o astro-rei aparece mais cedo pela manhã e se põe o mais tarde possível. Assim, todos dizem que é o dia mais longo do ano, seguido conseqüentemente da noite mais curta.

A segunda é que eles nesse dia não comem pipoca, nem bebem quentão, vinho quente, ou caem de boca na paçoca ou pé-de-moleque, mesmo porque esses últimos nem existem na Catalunha. O que eles comem é um tipo de bolo (ou torta?) chamado “coca”. Existem as cocas de mil folhas, de fruta e creme. São deliciosas, lindas e principalmente engordativas. Estão em todas as pastisserias e supermercados, em tamanho grande, gigante, astronômico e super-hiper-mega-bláster-mamãe-quero-virar-balão. Sim, porque eu procurei uma coca de medida mais tímida e encontrei só uma tamanho imigrante-sem-família bem meia-boca, mas deixa isso pra lá.

Tirando o fato de eles não comemorarem o dia do São João (aliás, nem me perguntem porque a festividade se chama dia de Sant Joan), nem terem como comida típica as mesmas que as nossas, para eles também não existe quadrilha, nem festa na roça, em suma, nada de lúdico. Já que no ano novo eles não podem se jogar no mar como nós, pois aqui nessa época é inverno e o frio é de doer, eles criaram essa coisa que não passa de um evento pra fazer barulho, muito barulho, ficar gordo, colestérico e gastar todo o seu salário em fogos de artifício. É como um réveillon de mentirinha sem propósito.

Por curiosidade eu fui com o Javi à meia-noite de segunda-feira para ver como era a tal festa na praia e só há uma palavra para definir o que senti: medo. Medo de toda a gente feia e porca que estava lá, de todas as explosões que se aproximaram de mim, enfim, pavor total. Tanto é que gravei um pouco da visão do inferno para vocês se certificarem de que não estou mentindo, e incrementei nossa musiquinha tradicional de festa junina para homenagear o ambiente catalão. Ficou assim:

O balão vai subindo
Vai caindo a garoa
O céu é tão lindo
A noite é tão boa

São João, São João
Acende a fogueira no meu coração

Me arrebenta o tímpano
Com um forte rojão

Queima o meu braço
Me estoura a mão

Atira uma bomba
Que eu dou um mijão

2 comentarios:

Fárlley dijo...

A festa foi maior do que a conquista da Eurocopa?

Tania dijo...

Bom ver sua carinha...saudadona de vc.....
beijocas