viernes, 28 de diciembre de 2007

Londres e um sul-africano sem nocao

Ola queridos. Perdoem-me o sumico e falta de acentuacao nesse texto. Posto essa mensagem diretamente do computador da minha amiga Bia, na Noruega. Como muitos de voces ja devem saber, passei o Natal em Londres, na casa da Karin, amiga da Beatriz.

Os meus preparativos para a viagem de fim de ano foram tao corridos que nao tive tempo de me inspirar e escrever palavras bonitas para ninguem, de sentar uma horinha na cadeira e dizer tudo o que penso sobre o ano que passou, enfim, foi tudo muito maluco nesses dias pre-natalinos. O que posso lhes dizer agora eh que rolou uma urucazinha na universidade, ou pelo menos eu creio que foi isso, e tive uns contratempos bancarios, e varios outros pepininhos que me tiraram todo o tempo e energia para me inspirar e escrever, o que faco so agora, e meio que pela metade porque estou morrendo de cansaco. So vou lhes contar um pouco da minha passagem por Londres e o comeco dessa estadia em Trondheim.

Cheguei em Londres no dia 21. Pra variar, meu voo atrasou porque o tempo la eh uma porcaria, havia nevoeiro em Gatwick (onde eu ia aterrissar), enfim, quando cheguei nao havia mais metro e tive que tomar um taxi que me custou £ 30. Tirando isso, o clima meia-boca da cidade e um outro contratempo que ainda contarei nesse post, minha viagem foi maravilhosa. A capital inglesa eh um sonho. Eu sempre nutri muitas expectativas sobre Londres, logo quando voce esta la de frente com os lugares turisticos que sempre ouviu falar e viu montanhas de fotos do local, eh sensacional.

Entao, resumindo: eu e Bia fomos aos lugares mais famosos de la. Passamos pelo Big Ben (claro!), London Eye (aquela roda-gigante branca e imensa de onde se ve toda a cidade), Tower Bridge (a ponte elevadica que eh cartao-postal da capital inglesa), Piccadilly Circus (um lugar onde ficam todos os teatros e que lembra o Madison Square Garden de Nova Iorque, com aqueles letreiros e luminosos que te ofuscam a visao), Trafalgar Square (a praca onde tem umas esculturas de leoes gigantes e muito lindos), Tate Modern (a galeria de arte moderna onde meu amigo Rubinho trabalhou), Millennium Bridge (uma ponte modernesima bem ao lado da Tate), Covent Garden (um mercado fechado chiquetesimo), Camden Town (um bairro de gente "muderna" com outro mercado famoso, porem bem alternativo, roupas coloridas, acessorios para raves etc) e na Harrods (a celebre loja de artigos de luxo que pertence ao pai de Dodi Al Fayed, o namorado da princesa Diana que morreu com ela no acidente de carro de Paris pouco depois de supostamente te-la pedido em casamento). Para o curto tempo que ficamos la, aproveitamos bem os dias, e eu amei Londres. Quero voltar.

A noite de natal e o dia 25 em si, passamos com os amigos da Karin, amiga da Bia. Na ceia do dia 24 para 25, fomos a casa de Bethania, uma menina muito bacana que morou com a Karin ha alguns meses. La estava uma galera, formada principalmente por brasileiros. Foi uma ceia muito animada, comemos ate sair quicando pelas ruas da cidade, bebemos, nos divertimos, foi tudo de bom. Ai no dia 25 fomos na casa de Debbie, uma australiana que trabalha com a Kaka. O ambiente la estava mais familia, com casais, criancas, entrega de presentes. Estavam em peso novamente os brasileiros (eu, Bia e Kaka) e albanianos (o marido e 2 cunhados de Debbie).

Bom, eh obvio que eu tirei centenas de fotos. Principalmente no comeco da viagem, quando eu e Bia fomos ao Big Ben. Beatriz esta tomando hormonios para ficar gravida, entao o seu humor oscila muitissimo. Ela tenta se controlar quando fica demasiadamente emocionada ou irritada com algo, mas as vezes o estado de espirito dela aparece ate nas fotos. E foi nessas que fizemos uma sequencia incrivel na frente do Big Ben. Eu querendo fazer um auto-retrato nosso daqueles tipicos que eu adoro tirar e a minha amiga nervosa com as pessoas ao redor que se acotovelavam para fazer o mesmo. E o bendito relogio nao saia direito nas fotos. Quando me dei conta da cara de louca da Bia, mostrei as fotos pra ela e nos agachamos de tanto dar risada. Bom, aqueles takes estavam impagaveis, ate que fomos na casa da Bethania para a ceia de Natal.

Entre as pessoas que estavam la, havia um sul-africano para o qual eu e Bia pagamos um pau. Alias, um pau nao, mas toda uma floresta de eucaliptos. Ele era alto, bonitao, gostoserrimo, e eu e ela nao paravamos de mirar o guapo. Quando ele soube que eramos brasileiros, veio puxar papo conosco e disse que adorava as musicas do Seu Jorge. A Bia, espertissima, disse que tinha o CD dele e que, se caso ele quisesse, podia mandar as musicas pro moco via e-mail (era a deixa pra pegar o endereco do gostosao). Ai ele virou pra nos e disse que nao tinha correio eletronico, que nao manjava nada de internet, e a namorada polonesa dele confirmou, dizendo que ele era uma anta pra assuntos tecnologicos. Ela muito espertamente ofereceu o seu e-mail para que a Bia mandasse as musicas, e ela consequentemente gravaria as cancoes para ele num CD. Minha amiga acatou a sugestao para nao dar uma de oferecida e entrona, claro.

La pelas tantas, com todo mundo breaco e nossas maquinas fotograficas em cima da mesa da sala de jantar, comecamos a tirar fotos para registrar a ceia. O sul-africano pegou a minha camera e me perguntou se podia fotografar a galera. Eu deixei, e ele passeou pela sala com o equipamento. De repente, ele chegou em mim e disse que havia feito alguma coisa errada. Olhei no visor da camera e realmente ele tinha entrado num menu desnecessariamente, eu disse que nao havia nenhum problema e continuamos a tirar fotos. Curtimos o resto da noite e, quando eu cheguei no onibus (de dois andares, tipico de Londres, vermelho, lindo!) de volta pra casa da Karin, percebi que as fotos se iniciavam em um ponto em que nao havia mais os registros do Big Ben nem da London Eye. Mexi na camera de tudo quanto foi jeito, revirei os comandos, mas nao teve saida: o fofo sem nocao, totalmente Crocodilo Dundee, apagou umas 120 fotos minhas na capital inglesa!!! Gente, eu sou canceriano... Podem queimar minhas roupas, roubar meu dinheio, arranhar meus CDs, mas apagar as minhas fotos eh o fim do mundo! Fiquei arrasado, a Bia tambem porque contavamos com aquelas imagens engracadissimas de nos dois e ela com cara de louca em frente ao Big Ben, mas aquilo tudo ficou so na memoria, agora. Na nossa, nao na da camera, por supuesto.

Felizmente, eu ja havia tirado 320 fotos naquela altura do campeonato, e ainda restavam 200 intactas. Ou seja, ele so conseguiu apagar 1/3. A Bia ficou puta, achou que ele fez de proposito, mas ele era muito fofo e tenho certeza de que nao fez intencionalmente. Ele eh Crocodilo Dundee mesmo. E de qualquer forma temos as imagens da camera dela, que eu nem me lembro se estao tao divertidas quanto as minhas estavam, mas de todo modo nao deixa de ser um registro. Por sorte, no segundo dia de nossa viagem a Kaka nos acompanhou ao Big Ben, entao tenho fotos nossas la. Assim que chegar a Barcelona, baixo e posto para que voces possam ver.

Agora estou na casa da Beatriz, na Noruega. So retorno a Barcelona no dia 3, portanto passarei o Reveillon aqui. O tempo nao esta tao frio quanto imaginavamos que estaria. La fora agora faz 0 graus, sendo que ha 2 anos, segundo ela, nessa mesma epoca os termometros chegavam a -10. Com isso, nao ha neve, e talvez eu nao consiga ver a aurora boreal, um espetaculo de luzes que so ocorre aqui quando esta muito frio, e no inverno. Mas eh muito louco que o dia so amanhece entre as 10 ou 11h, o sol nao aparece no ceu (ele fica o tempo todo abaixo da linha do horizonte, num eterno poente, e so se percebe um pouco da sua luz), e quando chega as 3h da tarde, ja esta tudo escuro novamente. Hoje fomos jantar na casa de uma amiga dela que era jornalista da Folha e, quando eram 19h, ja parecia umas 22h. Eh engracado como sentimos mais sono, mas as pessoas nao mudam sua rotina e os noruegueses vivem normalmente, mesmo com a luminosidade escassa. Homens e mulheres sao branquissimos e muito loiros, lindos da gente querer se giletar com muita frequencia, mas isso eh assunto para um dos meus proximos posts. Agora sao 2h da manha e eu preciso dormir, para curtir ao maximo a luz do dia de amanha. Torcam para que eu consiga ver a aurora boreal (assim fotografo para voces), e caso nao consiga escrever novamente ate o dia 31, aproveito para deixar minhas boas vibracoes para que voces entrem em 2008 com toda a energia Polo Norte, afinal, se eu erguer a minha mao, quase posso tocar nele! ;-)

lunes, 17 de diciembre de 2007

Sofisticações de um mundo desenvolvido - parte 1

Uma vez tive um papo com o Ronald Polito na qual falávamos da diferença entre o primeiro mundo e o Brasil. Eu penso que não é à toa que existe a expressão primeiro, segundo e terceiro mundo. De verdade. Quem quer que tenha tido a oportunidade de pisar num outro país mais desenvolvido que o nosso sabe que tudo muda consideravelmente: as ruas em geral são visualmente agradáveis, as fachadas preservadas, o chão limpo, e os transportes funcionam. Sem contar que os objetos são freqüentemente bem acabados e bonitos. Na visão terceiro-mundista, tudo que é belo não pode ser prático e vice-versa, o que eu considero um absurdo sem dimensão.

Pois agora eu vou tentar dar uns exemplos práticos disso aqui no blog. Pra começar, uma coisiquinha à toa do dia a dia. Eu como muito atum. Sempre gostei, mas tomei uma predileção especial depois que comecei a malhar. O atum é proteína pura, ajuda os músculos a crescerem e se recuperarem de distensões. Apesar disso, digamos que não é o prato preferido das classes trabalhadoras mais braçais (mais politicamente correto, impossível). Primeiro porque não há nada como uma boa xepa de arroz, feijão, batata frita e bife. Segundo porque é relativamente caro mesmo. A carne da nossa amiga vaca é mais barata. Então eu nunca entendi porque o atum enlatado brasileiro vinha embalado num recipiente gigante, tipo marmita de pedreiro. O que acabava acontecendo comigo era que eu abria uma lata, comia a metade e deixava o resto pro dia seguinte, sendo que eu tinha que comer o dito cujo já preto de ficar na geladeira, o que eu detestava (nada politicamente correto).

Pois aqui tive uma agradável surpresa: o atum espanhol é vendido num recipiente menor, do tamanho exato da fome de uma pessoa fina como eu. Sem contar o luxo do lacre interno que impede que qualquer tipo de ferrugem penetre (ui!) na lata, conseqüentemente se infiltre no atum e aumente a possibilidade da gente morrer de Butolismo. Como se não bastasse toda essa finesse, a embalagem é super clean, pois as 3 latinhas vêm sem qualquer menção ao conteúdo, agrupadas por um papelão onde - nesse sim - constam as informações que você precisa saber. Mas é só chegar em casa, tirar a porcaria do invólucro, e armazenar as latinhas lin-díssimas e sem qualquer poluição visual no seu armário. Acho chique.

Papai Noel existe!

Oi gente, quem escreve aqui é o Fofão, lembram de mim? Hahahaha, embora eu não esteja parecendo fisicamente com ele, me sinto o próprio. Fui ao dentista solucionar de vez aquela pendenga com meu molar. E estou com a sensação de que minha bochecha é uma almofada, mas ao mesmo tempo radiante, luminoso, EXPLOSIVO de tanta felicidade!!

Bem, eu não contei a vocês o que se passou na minha segunda consulta com a Dra. Fulvia. Conto agora: eu cheguei lá depois de sofrer e estrebuchar em mais uma semana de dor lancinante, movido a paracetamol e com o terço em punho. Então me sentei calmamente na cadeira dela, e disse: "Doutora, o seu band-aid já fez efeito, o efeito já passou, agora estou buscando um edifício bem alto pra me jogar dele de cabeça e acabar de vez com todo esse sofrimento. Eu não estou aqui para redimir ninguém". Ela muito tranqüila sorriu, pediu que eu relaxasse que ela ia dar um jeito naquela treva sem fim. Pegou o boticão, anestesiou a minha boca (que talvez tenha sido o momento mais feliz da minha vida até hoje), e começou a cutucar aquela joça de dente. Aí enfiou a mão toda na minha boca e me disse com cara de Sherlock Holmes: "Veja como eu estava certa: havia uma infiltração e a obturação saiu inteira nos meus dedos". Ela virou pro outro lado, jogou a massa amarela no lixo, olhou pra mim, arregalou os olhos o quanto pôde e engoliu um grito de desespero. Aliás, um grito não, pela cara dela, seria um urro que ia chacoalhar as torres da Sagrada Família, e coitados dos turistas desavisados que estivessem por lá naquele instante.

O que se passou foi uma agitação no consultório. Ela pediu alguma coisa que eu não faço idéia do que era pra sua assistente, que também nesse momento já parecia desesperada. Então me olhou e disse, ofegante: "Há uma cárie do tamanho da África no seu dente, a gengiva está inchadíssima e uma tsunami de sangue se prepara para invadir a sua boca e te afogar! Foi um prazer te conhecer". Sério, ela falou sobre a cárie, o inchaço e complementou: "Não é à toa que você sentia tanta dor, seu dente está feio mesmo. Talvez tenhamos que matar a raiz do nervo e fazer um tratamento de canal". Ao pronunciar essa última frase, seus olhinhos apresentaram dois cifrões dourados, imensos. Pensei "Joder!". Então ela disse que teria que estancar o sangue, colocar um medicamento local e esperar que a gengiva voltasse ao normal, o que provavelmente só ocorreria na semana que vem. Enxuguei como pude as lágrimas do rosto e fui ao balcão da secretária marcar uma nova consulta super gostosinha.

Cheguei lá e marquei pra hoje. Aí, antes de sair, a querida me disse: "Señor, con ese nuevo tratamiento creo que el valor cambiará un poco. Aqui está tu nuevo presupuesto". Quando olhei a fatura nova, vi que de € 58 o valor subiu pra € 185, não é legal? Amaldiçoei a minha dentista brasileira que deixou que isso ocorresse e amarguei uma pré-depressão financeira até hoje. A dor felizmente não voltou mais nesse meio tempo. O bolso já doía o suficiente...

Hoje voltei lá. A Dra. Fulvia me viu na sala de espera, acenou e disse: "Espera um pouquinho que hoje entrou um montão de urgências para eu atender". Esperei. Quando chegou a minha vez, ela perguntou se eu havia sentido dor na última semana. Nada. Aí ela olhou minha boca, falou que estava tudo realmente perfeito, veio novamente o boticão com a anestesia e lá vamos nós. Não é que a gengiva voltou ao normal? E o nervo se aquietou? O panorama havia mudado, e ela me disse feliz que não precisaria mais matar o nervo bandido, e que somente faríamos a restauração normal. Realizado o trabalho, ela me disse que se eu precisasse ela ali estaria depois do dia 07/01 (porque entra de férias de natal agora), nos desejamos boas festas e eu saí.

Cheguei no balcão da secretária pronto pra facada, olhando lacrimejante para os meus eurozinhos que se iriam. Nos beijamos e despedimos, então eu falei pra querida: "Hola, tengo que pagar el tratamiento". E ela: "Pués bien, son € 58". E eu: "Seguro que ese valor está correcto?", ao que a fofa replicou: "Sí, el niervo está perfecto, no fue necesario matarselo, son € 58". Gente, eu vi o mundo girar, saí de lá quase gritando de alegria pela rua, mesmo com o frio de 10ºC que faz! Nem acreditei! Sabem onde vou gastar esse dindin? Em LONDRES! Com tudo isso que me tem acontecido, só posso dizer que Papai Noel existe mesmo! Aproveite e faça já o seu pedido. Mas peça com fé, que só assim ele atende! ;-)

viernes, 14 de diciembre de 2007

Un balancito


Promessa é dívida. Eu finalmente consegui baixar a porra (oops) do arquivo que a Pauliiinha gentilmente me indicou (há séculos). Eu sou meio lerdo pra tecnologia mesmo, vocês sabem bem. Então, agora com as fotinhos já bem mais leves, vou colocá-las aqui e comentar visualmente um pouquinho desses meus dois meses em Barça.

Essa fofucha aí ao lado é a Amélie. Ela é a gata da Marina, a espanhola que vive no mesmo piso que o Ale. Não se iludam: ela só tem cara de querida. Arranha todo mundo sem dó nem piedade, ainda mais depois que algum sádico a estimulou colocando um pedaço de papelão bem no meio da sala, para que ela possa afiar as garras. Mesmo assim, se você descobre como ela funciona (tipo não venha muito meloso que ela ataca mesmo), fica uma relação amigável.
Foi legal ficar a primeira semana entre a casa do Ale e da Sil, mas foi mais legal ainda conseguir arrumar uma habitación em um piso perto dos dos deles.

Por que "Balconews"?


Pois bem. A visão que você tem à direita é a que eu tenho todos os dias, do meu balcão. É daqui que você recebe as notícias da minha vida, vistas do meu balcão (por isso "Balconews"... Dãã!). Pra falar a verdade, agora as árvores ao meu redor estão quase que totalmente peladinhas, porque o inverno está chegando pra valer.

Mas quando eu cheguei tudo estava assim: o céu azul e a natureza exuberante. A minha rua aqui é muito semelhante à Peixoto Gomide, em Sampa: ao mesmo tempo em que é central e com um tráfego considerável de carros, também pode parecer pertencer à de uma cidade do interior em alguns momentos do dia. Sem contar que pouquíssimos estudantes podem se dar ao luxo de ter uma habitación com balcão em Barcelona, pois em geral elas são beem mais caras do que as que dispõem de ventanas (janelas) al interior, ou que simplesmente não dispõem de ventana (!). Eu sou muito feliz aqui, apesar de não poder receber visitantes de nenhuma espécie, sejam do reino animal, vegetal ou mineral (brincadeira, as plantas são bem vindas!). É uma regra do piso e eu respeito, em troca tenho um ambiente muito tranqüilo e 100% limpo (não preciso lembrar a vocês o episódio dos churros, né?).

Joe Michalak


A passagem do Joe aqui por Barcelona foi muito importante para mim, por uma razão simples: eu descobri que se não consigo manter uma relação de exclusividade duradoura com uma só pessoa, eu tenho capacidade de manter várias relações que me acrescentam muito, por longos períodos, com caras diferentes. E isso sem excluir aventuras com outras pessoas. Eu ando me perguntando seriamente se os meus rolos ou namoricos não são uma tendência pro futuro.

Essa foto tiramos eu e ele na frente da Pedrera do Gaudí. Nessa mesma noite, jantamos no restaurante onde a Katí trabalha, discutimos por causa de dinheiro (o que não é raro), nos desculpamos, até que chegamos à Plaza de la Universidad, onde ele virou para mim, me deu três selinhos e enquanto dava cada um deles, me disse: “esse é por São Paulo, esse é por Fortaleza, e esse é por Barcelona” (os três lugares onde já ficamos juntos). Claro que minhas pernas bambearam e eu me vi assustado com a constatação de que já tenho uma história com esse homem. Ainda nos falamos sempre por e-mail, ele agora está em Nova Iorque, provavelmente com um russo que estava dividindo apartamento com ele, e eu aqui saindo com meu borrachito…

Sil e Ale


Esses dois não são muito fofos? Eles formam um casal incrível. São Silvia e Alessandro, ela brasileiríssima, ele 100% made in Italy. A Silvia eu conheci de um modo muito particular. Eu namorava o Gustavo, melhor amigo dela, e nos conhecemos numa festa. Foi simpatia à primeira vista. Meu rolo com o Gu terminou, mas a Sil se incorporou à minha vida de uma maneira muito feliz. Se tem alguém que me inspira muito a estar em Barcelona, esse alguém é ela. Fala de Barça com uma paixão incrível! Já é uma chica europea. E sempre que eu vejo os dois juntos, volto a acreditar no amor (ou passo a acreditar, talvez eu nunca tenha acreditado nele de verdade). O Ale tem uma moto, então sempre que eu via os dois saíndo pra algum lugar de moto, pensava que aquilo tudo era muito romântico e eu também queria ter um namorado motoqueiro um dia.

Minha mãe a vida inteira me disse para eu tomar cuidado com meus pedidos... De fato, eu arrumei um namorado motoqueiro aqui. Ou melhor, um rolo que tem uma vespa. Mas enquanto o Ale é tranqüilo, responsável e leva a Sil com muito carinho na sua moto pra lá e pra cá, o meu rolo é um porra louca bipolar e borracho. A primeira vez em que ficamos juntos, ele insistiu tanto pra eu ir com ele embora com um só capacete (que ele cedeu a mim e foi sem proteção alguma), que fomos multados pela polícia espanhola. Foi um papelão. E depois a figura ainda me amassa a multa na frente dos guardas e a atira no cesto de flores da rua! Quase morri de vergonha. Se estou com ele é porque gosto do ser humano, porém jamais montei de novo na sua garupa. Então é muito comum, quando ele vem me encontrar, sairmos os dois feito patetas, ele conduzindo a moto a 2 km/h e eu ao lado dele, caminhando com cara de "vai na frente que eu te encontro na sua casa!". Assim é a vida...

domingo, 9 de diciembre de 2007

Qual é a fórmula?

Leo é um garoto bonito de 23 anos. Tem cabelos e olhos muito negros, sobrancelhas marcantes, boca carnuda. Sua fisionomia lembra um pouco a dos orientais, com os olhos levemente amendoados. Os cabelos estão sempre bem penteados e para cima, com pomada, num estilo moderno. Seu rosto é largo, forte, masculino. Além disso, tem corpaço, pois malha 4 vezes por semana e se alimenta de forma saudável. Sua barriga, embora não tenha gominhos, é chapada. Ele se esforça para manter o peso em equilíbrio, já que na infância foi gordinho e usava óculos de armações enormes. Era o bicho feio da família, em quem ninguém apostava um níquel. Aos 15 anos começou a correr e ganhar prêmios depois de vencer algumas maratonas. Isso lhe deu gás para elevar a auto-estima. Com 18 anos, seu pai lhe disse que precisava dar um rumo em sua vida e assim ele o fez. Conseguiu uma bolsa de estudos para cursar Filosofia na Europa, mudou-se da Colômbia, partiu com apenas uma mala de 40 kg e € 70 no bolso. Estudou na capital, não gostou do curso, foi pra Benidorm no verão, trabalhou como bartender, começou a malhar, esculpiu o corpo e dançou na noite. Fez uma grana, se tornou um cara desejado e mudou-se pra Barcelona. Hoje faz Turismo numa faculdade de luxo, e seu calcanhar de Aquiles é falar inglês, idioma que não domina mas que é imprescindível na sua carreira. Apesar disso, mora num apartamento bem localizado, trabalha em escritório, tem seu celular e um guarda-roupas abarrotado de marcas famosas.

Pablo é venezuelano. Tem 30 e poucos anos e trabalha numa empresa fabricante de chocolates e pasta de amendoim. É coordenador de marketing e vendas. Decidiu sair da Venezuela há 4 anos, quando Hugo Chávez, que considera um primata, tomou o poder em seu país. De lá pra cá ficou ilegal por muitos meses, distribuiu panfletos na rua, entregou pizza e viu suas economias sumirem da conta bancária, transformadas em caros euros. Depois de trabalhar 11 horas por dia na pizzaria, conseguiu ser efetivado e contratado como residente, deixando a ilegalidade. Fez tudo isso apoiado por William. Eles se conheceram num bar gay de Caracas, quando Pablo estava devastado pela morte de Jesus, seu parceiro anterior. Ambos namoravam e estavam bem, até que Pablo começou a sentir dores ao urinar, e Jesus dizia que suas pernas formigavam. Eles não deram importância às dores, até que o primeiro percebeu que havia sangue misturado à sua urina quando ia ao banheiro, e o segundo viu o formigamento transformar-se em dores que o impediam de andar. No mesmo dia decidiram ir ao médico, e no mesmo dia descobriram que um estava com câncer na bexiga e o outro com leucemia. Em uma semana Pablo foi operado para realização da cirurgia que lhe permitiu retirar o tumor, enquanto Jesus foi internado no hospital para sessões de quimioterapia. Depois de 7 dias da remoção do câncer, Pablo não agüentou e foi como pôde visitar Jesus. Naquela tarde em que estiveram no hospital, ele percebeu que o companheiro tinha uma ferida de grande extensão no pescoço, cheia de sangue pisado. Aquilo lhe comoveu muitíssimo, pois sabia que não sobreviveria. Assim, trocaram juras de amor e se despediram. Jesus faleceu naquela mesma tarde, duas semanas depois de detectada a leucemia.

Já William, que também é de Caracas, conheceu Pablo num bar, onde este foi tentar desanuviar a cabeça na época do luto. Já não sentia dores na bexiga pela retirada do tumor, mas estava devastado pela morte do companheiro. Pablo estava alheio ao que se passava no bar, mas o outro foi incisivo e fez de tudo para conhecê-lo. William é assim porque tem em seu histórico a carreira de militar. É um cara fechado, um tanto crítico e quase nada complacente com os erros alheios. Não é de muito papo. Também decidiu vir pra Espanha com a vitória de Hugo Chávez para presidente da Venezuela. Hoje trabalha em um supermercado popular, e deseja requerer a cidadania espanhola junto ao companheiro.

Katia por sua vez não precisa mais requerer cidadania. Ela é tanto brasileira como italiana por conta de sua ancestralidade, e trabalha como garçonete num restaurante moderno no Raval. Chama muito a atenção por sua pele naturalmente bronzeada, seus cabelos loiros e seus quadris opulentos. Ela é muito sexy e, por saber que essa sensualidade toda pode lhe gerar problemas no ambiente de trabalho, como cantadas indesejáveis, tem uma postura bastante séria e compenetrada, o que não afeta a educação e simpatia com que trata a todos. Ainda assim, os clientes babam nela, porque é o tipo de mulher vulcânica que faz qualquer homem menos seguro tremer nas bases quando ela os mira. Katia divide apartamento com uma italiana e outros brasileiros, entre eles uma chamada Silvia.

Silvia é uma menina muito na dela. Chegou à Espanha querendo estudar e, se tudo desse certo, migrar de vez para o país. Apesar de desenvolta, é reservada. Discreta, quase não usa acessórios, o que não a impede de ser bonita. A plasticidade que não aplica à própria aparência, porém, é desenvolvida no ambiente doméstico e nas tarefas que executa no dia a dia: é artista plástica. Ela enfeita luminárias de papel como ninguém, decora a casa com maestria, e consegue fazer de um simples origami um adorno inesquecível para embelezar qualquer ambiente. Foi ela quem convidou e deu força a um outro amigo brasileiro que estava em dúvida com sua vida para ir à Barcelona. E foi lá que tanto ela conheceu Alessandro quanto ele conheceu Cristóbal e Ivan.

Alessandro é um italiano de pele muito clara e olhos turquesa. Se está numa reunião com muita gente falando ao mesmo tempo, fica tímido e se cala. Quem o vê ao longe não consegue formar uma opinião específica sobre ele ou o classifica simplesmente como simpático e educado, mas quem o conhece razoavelmente sabe que tem um coração gigante e disposição de sobra para ajudar quem precisa. Também é um cozinheiro de mão cheia, e só prepara pratos que sejam ao mesmo tempo saborosos e saudáveis.

Já quem não tem nada de cozinheiro é Cristóbal. Ele é a cara do Alec Baldwin, e tremendamente bon-vivant. Não sabe cozinhar e é junkie. Adora uma balada e se entupir de drogas. É fã incondicional de poppers, principalmente para fazer sexo, ainda que nem todos seus parceiros curtam fazer o mesmo. Por sua pinta de rico conseguiu se infiltrar no meio televisivo de seu país de origem, o Chile. Viajou o mundo todo nas asas da fama, conheceu Rod Stewart, Julia Roberts, falou ao vivo com Madonna na entrega de um prêmio de música. Chegou a ganhar 50 mil dólares de salário, mas como é porra louca, torrou tudo em boa vida. Trocou os holofotes da TV por uma carteira de clientes de luxo em uma imobiliária de alto padrão. É indiscutível o seu bom humor e descaramento mesmo nas situações mais adversas, e ainda desfruta de privilégios da época de famoso. Quando conheceu o amigo brasileiro de Silvia, estava com a pele torrada de uma viagem que havia feito a Dubai, a convite de um amigo empresário. Tentou de todo modo conquistar o amigo da moça, mas quem chegou mais perto foi Ivan.

O holandês Ivan é produtor de casting de um teatro de Barcelona. É loiro, alto, de olhos muito verdes e pele dourada. É daquele tipo de nórdico que adora tomar sol, mas só pra dar uma corzinha e ficar com cara de saudável. Tem pele de veludo e atribui isso à quantidade de água que toma por dia, que nem sabe quanto é mas pode-se medir em galões. Mora sozinho num apartamento perto da praia, que foi decorado por uma arquiteta e é todo clean. O quarto, por exemplo, é muito branco e aconchegante. A cozinha tem equipamentos de metal que parecem industriais, o banheiro é forrado com pedras planas de cor verde acinzentado que absorvem a água. Tudo parece estar em perfeita comunhão com a natureza, muito calmo e aconchegante. Assim como seu apartamento, Ivan também é calmo, e chega a ser frio de tão tranqüilo. Ele conheceu o amigo de Silvia em um site de relacionamento, dormiram juntos por duas noites, e depois se despediram sem grandes expectativas. O brasileiro, que vive no mesmo apartamento de Leo, foi para casa pensativo e um pouco pesaroso.

Leo, apesar de bonito, inteligente, trabalhador e muito gostoso, também é bastante só. Decidiram tomar um café juntos, o colombiano e o brasileiro, para falar de suas dores de cotovelo e começaram a raciocinar em conjunto para tentar encontrar uma pista sobre o paradeiro do parceiro ideal. A eles pareceu um contrasenso que Pablo, tão sensível por tudo que lhe ocorrera na vida, topasse viver uma relação de oito anos com William, que é um militar por formação e um tanto insensível (ao menos aparentemente). Especularam que talvez eles não fossem felizes por serem tão distintos e ainda estivessem juntos por conveniência. E Silvia e Alessandro? Seria fácil para eles permanecerem unidos porque são semelhantes? Mas se a semelhança de estilos une os casais, porque uma possível vida futura com Ivan parecia tão menos colorida que com Cristóbal? E Leo, porque continuava sozinho? Assim como ocorre com Katia, ele exala sensualidade e há muita gente que morreria para ficar com ele. Por outro lado, por sua aparência, ninguém chega junto deles e os que chegam não os levam a sério. Então qual seria a fórmula que atrai os casais, e o que os mantém juntos? Existiria uma fórmula?

Chegaram à conclusão de que fórmula mesmo não existe, pois se existisse já haveria alguém por aí muito rico de ganhar dinheiro com ela. Tanto o colombiano quando o brasileiro concordaram que, saindo com todo mundo ou ficando em casa, o importante era se manterem retos em suas convicções. Que melhor que optar entre o preto ou o branco, bom mesmo é o cinza, que tem várias tonalidades que dá pra variar conforme o dia e o humor. E enquanto tomavam o café e riam às custas dessa tentativa inútil de descobrir fórmulas, os telefones de ambos vibraram com convites para almoço e festa, e pensaram que importante mesmo é alimentar a esperança com muito chocolate e deixar a vida te levar, pois ela é breve e não dá pra perder tempo com conjecturas sem respostas.

martes, 4 de diciembre de 2007

Voltei... com dor de dente!

Oi galera! Andei sumido, eu sei, eu sei. Bom, tenho boas razões para explicar o meu sumiço, uma delas é... UMA DOR DE DENTE INSUPORTÁVEL! Eu explico.

Na minha infância, meus pais nunca foram um exemplo de como preservar a saúde bucal. Eles mesmos foram alvo de negligência por parte dos pais deles, que tinham uma origem muito humilde, portanto isso acabou se estendendo a mim, e não são poucas as minhas memórias de noites de domingo quando voltava sonolento da casa da minha avó, depois de ter comido um pacote de bolacha waffle de chocolate, e minha mãe não me obrigar a escovar os dentes com pena de me despertar. Então o resultado disso tudo é que eu hoje coleciono algumas boas obturações na boca. Há 2 ou 3 anos, com meu senso estético implacável, resolvi trocar essas restaurações de amálgama que tinha por outras de resina branca. Na época, minha dentista me aconselhou a não fazer isso, pois segundo ela as de resina não são tão resistentes quanto as de metal, algumas inclusive são um pouco tóxicas etc, mas não adiantou: eu troquei assim mesmo.

Tudo ia bem até que em maio desse ano eu fui pra Fortaleza com o Joe, meu rolo americano, e bingo: me começa a doer um dente. Na época sanei o problema com milhões de compressas de água quente e malvatricin, e consegui dar uma contornada nos dias infelizes. Quando voltei pra Sampa a minha dentista falou que realmente havia problemas em uma restauração. Trocamos a dita cuja, e a dor desapareceu.

Eis que chego aqui em Barcelona e sinto uma necessidade enorme de comer tudo o que vejo pela frente. Como o inverno está chegando e o frio europeu é muito mais forte que no hemisfério sul, comecei a ter loucura por ficar beliscando. Aqui uma das poucas opções saudáveis pra se beliscar são os famosos frutos secos. São milhos desidratados, amendoins, amêndoas e uma variação de outras tranquerinhas que a gente come e que são duríssimos. Eu fico parecendo um esquilo fazendo "croc croc" o tempo todo, porque como sou muito magro meu corpo não agüenta e me pede pra eu comer umas coisas mais pesadas, como esses frutos oleaginosos (a pessoa está se sentindo O Biólogo hoje), chocolate e Nutella. De andar na rua aqui eu às vezes fico exaurido, porque o frio é intenso e a gente perde muita energia, principalmente pela cabeça, que em geral está descoberta. Me lembro que no Canadá meus professores diziam para que a gente não subestimasse o frio e andasse com gorro e proteção para as orelhas, pois são as partes que mais ficam afetadas com a baixa temperatura. Nos primeiros dias lá eu não dava atenção para o que eles diziam, e depois de 3 minutos de caminhada parecia que minha orelha ia partir, caso eu a entortasse, de tanto que congelava.

Voltando a Barcelona, sábado retrasado estava eu comendo meus frutos secos na frente do computador e me começa a doer o dente. Aquele mesmo de Fortaleza, doendo de novo. Muito. Mas MUITO MESMO, sabe aquela dor que começa no dente, se estende pelo maxilar e você sente umas agulhadas até no coração? Assim. E eu corri pro banheiro, fiz compressa de água quente e nada. A dor não passava, e o frio vindo das frestas da varanda aumentava, e eu não sabia o que fazer. Não tinha um puto de um analgésico, meus companheiros de piso dormiam, e eu me virava, mexia e remexia na cama, e não sabia mais em que posição ficar. Tinha vontade de socar a minha cabeça na parede até aquela dor maldita desaparecer, ou arrancar meu dente na unha, como o Tom Hanks fez em "Náufrago" (só na ficção mesmo...). Consegui dormir somente quando o dia já raiava e eu estava exaurido. Acordei num mal humor monstro e liguei para o meu seguro médico em Londres, pois também tenho cobertura dentária.

Eu não estava com muita vontade de acionar o seguro, porque sempre acho melhor deixar esses artifícios para situções extremas, quando te quebra algum osso ou uma coisa muito absurda acontece, mas o Pablo, meu companheiro de piso, me estimulou e disse que eu não deveria ficar sofrendo daquele jeito. Liguei. O menu da seguradora já apresentava a opção "para apólice firmada no Brasil, press X". Fui seguindo o menu até que uma moça surgiu do outro lado da linha. Aí eu comecei a minha lamúria, dizendo que não havia dormido a noite toda, estava morrendo de dor e precisava de um dentista naquela hora, em pleno sábado. Eu juro que pensei que estava em São Paulo, onde se duvidar até comida de cachorro se entrega na noite do Réveillon na sua casa. Tolinho. Os serviços 24 horas aqui são lenda, e os raros que existem fazem com que a dor se transfira do corpo pra conta bancária. Bom, o que aconteceu é que a moça suuuperatenciosa do seguro me disse exatamente assim, no nosso bom português: "Xiii, achar dentista hoje e essa hora em Barcelona vai ser difícil, mas vamos tentar". E eu: "Não amiga, você não está entendendo. Você vai conseguir! Eu preciso de um dentista pra hoje, estou morrendo". Ficamos acertados de que Tina (esse era o nome dela) me ligaria assim que tivesse encontrado um profissional que pudesse me atender no final de semana, eu de procurar uma clínica dentária aqui perto de casa que aceitasse o pagamento via Isis (minha seguradora), e caso conseguisse e fosse atendido, ligaria para ela de novo para dar baixa na minha chamada.

Descobri que há uma filial da Associação Espanhola de Dentistas a duas quadras da minha casa. Fui pra lá muito feliz, mas quando cheguei, duas surpresas: eles tinham plantão e quem abriu a porta foi o próprio dentista. O tal plantonista era jovem, lindo, loiro, com olhos azuis incríveis, mas em sua testa piscavam os dizeres "INEXPERIENTE, INEXPERIENTE, NÃO CONFIE NOS MEUS SERVIÇOS, ME DEIXE AQUI TRANQÜILO XAVECANDO A SECRETÁRIA". Mesmo assim eu respirei fundo, segurei com força na mão de Jesus e perguntei pra recepcionista se eles aceitavam Isis. A resposta foi... Adivinhem! Não sejam tão pessimistas e tentem... NÃO, claro! E detalhe: o serviço que custava € 58 nos dias de semana, atingiam a cifra de € 104 nos finais dela. Desisti e saí pensando no que faria.

A verdade é que nada aqui funciona nos sábados e domingos, e muito menos nos feriados. Então fui até a farmácia, comprei uma boa caixa de paracetamol e esperei a segunda chegar pendurado na cruz. Como nossa querida Tina disse que me ligaria no primeiro dia da semana (segundo? Ah, nem sei), deixei pra ligar de novo se precisasse só na terça. Claaaaaro que a querida NÃO me ligou. Então eu liguei de novo, aburridisimo da dor de dente que voltava a se instalar. Dessa vez uma outra garota me atendeu, e eu "Olha, eu liguei aí no sábado e..." e a menina "Sir, I'm sorry, can you talk to me in English?". Bom, eu estava num mal humor bandido e mal conseguia pensar em inglês. Mas foi só começar e desembestei. Falei que achava aquilo um absurdo, que ninguém ia me dar um sinal de vida e eu ali, morrendo de dor de dente, no maxilar, na cabeça, dor em tudo. Ela sendo atenciosa, mas dentro daquele maldito script dela. Aí eu comecei a engrossar e disse "If you don't find me a dentist here in Barcelona today I'll cancel this insurance and ask for refund". E ela "OK sir, give me your mobile number and some minutes and I will call you back". Dei o meu número pra ela e perguntei seu nome. Ela me respondeu: "Errr, sir, it's Tina". E eu "You're lying. I talked to a certain Tina on saturday and she spoke to me in English. What's your real name?". Ainda que aquilo me parecesse uma versão de muito mal gosto do filme "Closer", ela me disse finalmente "My name is Maya". Aí eu, tentando rir pra não chorar, saí de lá pensando "Que bom, já falei com a Tina e com a Maya, agora só falta eu ligar pra Lil Kim e elas me perguntarem em uníssono "Voulez-vous coucher avec moi ce soir?".

Bueno, de fato a querida me ligou alguns minutos depois "me sugerindo" que eu procurasse uma clínica dentária por minha conta e mandasse depois a fatura pra STB Brasil, que é o representante brazuca da droga da Isis e onde eu tive a infeliz idéia de contratar esse serviço. Eu já estava tão de saco cheio daquilo tudo que aceitei fazer o que ela me pedia e me despedi bem ríspido pra não mandar ela à merda. Novamente me apeguei a Jesus (que não me abandona) e voltei àquela mesma clínica de sábado, cuja atendente a essa altura pensaria "esse trouxa veio aqui no sábado, achou caro e resolveu voltar hoje, que é mais barato... esse povo pobre só pode ser masoquista, mesmo...". Para minha total felicidade quem me atendeu foi uma dentista brasileira, a Dra. Fulvia. Ela é uma gaúcha que ficou 6 meses em Madri e agora resolveu vir pra Barça. Quase ajoelhei aos pés dela quando me disse que era brasileira, e eu pensando no esforço inútil que fiz em tentar traduzir mentalmente "o problema é que eu cismei de trocar as minhas restaurações de amálgama por resina branca, e agora meu dente está muito sensível porque eu comi frutos secos e um deles arregaçou meu molar". Trabalho de explicações em castellano poupado, ela me disse que naquele dia infelizmente não teria horário para refazer a obturação, e eu disparei um "pelo amor de Deus, estou morrendo de dor, você não vê as minhas olheiras, não durmo há dias!". Aí ela me fez um curativo "como se fosse um band-aid, só que no dente".

Agora estou aqui, munido de paracetamol e paciência, esperando a minha vez de passar na doutora Fulvia para fazer definitivamente o conserto, que é mais precisamente na terça-feira que vem (que a mim parece que é terça-feira, 11 de dezembro de 2028). Já me acostumei à dor. Estou me sentindo a versão masculina e brasileira da Frida Kahlo, só me falta comprar umas telas, pincéis e começar a pintar. Minha primeira imagem será eu com uma boca aberta à la "O grito" do Munch e um dente jorrando sangue, com o tamanho triplicado de um dente normal. O fundo será uma moldura de touros espanhóis me chifrando o maxilar, para dar uma ambientação típica. Aproveitando que vou passar o natal em Londres, vendo a pintura na Sotheby's me declarando um novo e revolucionário artista plástico. Ai!

Depois de quase 2 meses aqui na Espanha (quase DOIS MESES! Passa muito rápido), já me deu de tudo um pouco: distenção no tendão, intoxicação alimentar, e agora essa dor de dente monstra. Mas dizem que é assim mesmo. O corpo precisa de tempo pra se adaptar à nova rotina, temperatura, alimentação... Mas de todo modo estou amando, ainda mais porque conheci muita gente do mundo inteiro, tenho vários amigos novos e minha vida sexual nunca esteve tão animada! Barcelona é realmente a cidade do sexo. Aliás, acho que vou dar uma de Carrie Bradshaw e escrever sobre as minhas aventuras e desventuras sexuais aqui. Portanto, aguardem que vem relleno caliente adelante... ;-)

jueves, 8 de noviembre de 2007

Seu Creysson

Hoje estou muito sucinto e só vou lhes dizer algumas poucas palavras:

Pregunta si el espacio donde hay vidrio esta limpio, al contrario podemos limpiarlo y poner alguna fragancia.

Sim, hablando en castellano, podem me chamar de Seu Craysson que eu contesto (atendo).

domingo, 4 de noviembre de 2007

Churros com chocolate

Procurar piso (apartamento) aqui em Barcelona é uma das aventuras mais bizarras que existem, mas pode ser muito divertido se você é como eu e adora espiar as casas dos outros. Tudo começa nos sites de busca daqui. O mais famoso é o loquo.com, que não só te possibilita encontrar anúncios de habitaciones (quartos) vagos, como também zilhões de outros serviços. Agora vou me deter mesmo é na busca de pisos.

Há sempre muitos cômodos e apartamentos disponíveis para alugar na cidade. Com a alta rotatividade de turistas e estudantes, os anúncios de quarto vago pipocam aos montes todos os dias nos sites de busca, então basta você definir alguns critérios e a aventura tem início. No meu caso, coloquei lá que buscava algo que me custasse entre 200 e 350 euros e as localidades próximas da casa da Silvia ou em bairros centrais de Barcelona. Já que eu ia ter que pagar aluguel, que pelo menos não tivesse que ter gastos adicionais com transporte, certo? No começo não me importei mesmo com critérios (quem me ajudou nisso foi o Alessandro, heteríssimo, então para ele só importava a proximidade do lugar).

O primeiro local que visitei ficava no Paseo de Pujades, uma avenida arborizada e bem bonita. O aluguel custava €300. Liguei para o responsável pelo piso e marquei com ele às 10h do sábado, mesmo porque cheguei numa quinta, mas como todos trabalham o dia inteiro fica mais fácil procurar vagas em apartamentos aos sábados. Quando localizei o início do Paseo de Pujades, estranhei a beleza da rua e o fato de o aluguel ser tão barato. Mesmo assim fui em frente.

Cheguei no prédio, que não era feio, e quando me preparava para adentrar uma moça que acabara de estacionar sua bicicleta na calçada me pediu que segurasse a porta pra ela entrar também. Achei uma coincidência engraçadinha ela poder chegar com a bici e ter alguém para segurar a porta para ela. Entramos. Chegou o elevador, apertei o botão que indicava o quinto andar. Ela me olhou espantada e disse que também ia pra lá. Não me lembro qual era a porta para qual eu teria que me dirigir, mas ela também ia para o mesmo local. Percebemos a coincidência, demos um risinho amarelo e ela me perguntou: "¿tu también estas aqui para conocer la habitación para alquiler?". Eu respondi que sim e os dois ficaram ligeiramente impressionados com a impessoalidade do tratamento recebido. Impessoalidade era pouco: chegamos e um cara com traços indígenas (provavelmente de algum país da América Latina) nos recebeu, e pediu que aguardássemos no salón (sala de estar). No cômodo, havia uma televisão ligada no jornal da manhã da TV espanhola, e bem diante dela uma mesa com uma toalha quadriculada à la cantina italiana de quinta categoria. Um geladeira ficava espremida entre um armário com portas que não se acabavam mais, e pessoas de pijama circulavam pelo local, sacavam comida da geladeira e nos sorriam desconcertadas. No sofá velho com uma capa marrom por cima, uma mulher muito branca e loira esperava sua vez de conhecer a habitacion, ao lado de um menino possivelmente japonês que fazia o mesmo. Me sentei ao lado deles tentando esconder a minha estupefação e esperei a minha vez.

Então o tal Fernando, com quem eu marquei de conhecer o quarto e era o homem com cara de índio, me chamou pelo nome (oohh!) e me pediu para acompanhá-lo. Lá fui eu para um cubículo de uns 2X3m, com uma cama de meio solteiro (lamento, mas nem o Johnny Luxo de lado caberia naquilo) e um armário acoplado à parede, e a ventana, claro, era al interior (aqui há ventanas - janelas - que dão para um átrio de dentro do prédio, portanto al interior, e outras que dão ao exterior, que não é preciso explicar, certo?). Ele me lançou um olhar de indagação do tipo "¿te gustas?" e eu novamente usei meu sorriso amarelo e disse: "voy a piensar se me quedo con la habitacion y cualquier cosa llamote, ¿vale? Gracias". Não preciso dizer que não voltei mais àquela espelunca e nem sequer dei sinal de vida, né? Quando estava pra sair do prédio, a mulher da bicicleta estava na portaria e me perguntou o que eu estava pensando daquilo. Eu fui super sincero e disse "Claro que no voy a quedarme con la habitación. ¡Es mucho impersonal!". Ela então me disse que era argentina, estava tentando alugar um piso só pra ela e que alugaria os outros quartos, se eu não queria lhe passar meu e-mail para que me chamasse quando tivesse algo alugado. Eu pra ser simpático olhei bem pra cara maquiada dela, rodeada de uns cabelos descoloridos e com a raiz aparecendo e respondi: "¡Por supuesto! Fuimos vecinos (vizinhos) en America Latina y podemos ser vecinos aqui también". Ela ficou felicíssima, anotou meu e-mail e saiu serelepe com sua bici branca. E eu pensei com meus botões "até essa louca conseguir alugar algo eu já estarei alojadíssimo".

Soube depois pelo Ale que há apartamentos gigantescos como aquele que visitei que os donos simplesmente contratam alguém de uma imobiliária ou de uma agência e colocam pra tomar conta e alugar daquela maneira como se estivessem vendendo banana. Claro que passava longe do tipo de acolhida que eu esperava obter. Então continuei a procurar, e foi uma sucessão de desastres. Vou contar só alguns bem peculiares para que vocês não pensem que Barcelona é inabitável e que a humanidade está perdida. Em um que ficava em Vallcarca (um bairro ao lado do famoso Park Güell, com uns prédios bem bonitos e uma vista arrasadora de toda a cidade), moravam uns meninos, digamos, bem pouco higiênicos. Entrei no apartamento e dei de cara com o dono esparramado no sofá, com um cobertor xadrez até as orelhas e uma pilha de lenços Kleenex ao lado dele. O nariz de pimentão já denunciava que ele estava quase morto de tanta gripe, e como não podia me atender um italianinho (beem bonitinho, saradinho, com um nariz esculpido desse tamaninho e bem machinho) que estava de saída do apartamento me mostrou o lugar. Havia migalhas de pão em todos os corredores da casa, ao menos um copo sujo em cada cômodo, uma samambaia descontrolada ameaçava devorar quem se aproximasse da terrassa (varanda), o forno estava sem porta e todo negro como que se um coquetel molotov tivesse explodido lá dentro ("el horno no funciona, pero vamos a arreglarlo esa semana sin retardo", me jurou ele), dos dois banheiros apenas um funcionava porém estava inutilizável devido à quantidade de pêlos que se amontava pelo chão, colados às gotas de xixi que faziam uma corrente ao redor do vaso sanitário, mas a habitacion em si era média, iluminada e ainda continha uma varanda, ó-te-ma pra se jogar depois de ver todas, eu disse todas as quatro paredes forradas de cima a baixo com fotos de mulheres peladas. Era muita coisa para um só estômago, no caso o meu. Mais uma vez agradeci e disse que ligaria caso me interessasse em ficar com o quarto, e sumi o mais rápido que pude.

Em um outro, cuja planta fora desenhada inspirada numa tripa (sabe aqueles apartamentos de comprido que para chegar no quarto você faz um tour obrigatório pela casa toda?), havia duas coisas extraordinárias: primeiro, o proprietário teve a idéia genial de instalar uma ducha dinamarquesa no banheiro. É aquela na qual você entra num tipo de espiral toda furada, que jorra água a todo vapor no corpo inteiro ao mesmo tempo. Uma delícia, não? Pois é. Só que para ter aquilo e não lavar o recinto todo enquanto você toma banho, é necessário instalar uma espécie de tubo que circunda a espiral e impede que um tornado aquático destrua o ambiente. Ainda assim estaríamos bem se se descontasse o fato de que o banheiro tinha uma área minúscula, e que pra conseguir ter o bendito tubo em volta da ducha espremeu-se a coitada da privada num canto tão diminuto que a pessoa tinha que fazer uma torção no tronco para conseguir castigar a porcelana, se é que me entendem, já que não há ser humano no mundo que tenha um ombro tão estreito que caiba naquele espaço pífio. Não me imaginei lendo o jornal ali pela manhã, definitivamente.

Nesse apartamento tão bem planejado, o pior ainda estava por vir. Imaginem o momento da criação da frigideira. Agora, o criador a colocando pra funcionar, jogando óleo nela e fritando um ovo, satisfeito de ter sido tão criativo. Em seguida, ele frita uma linguïça. E depois bacon, salsichas, bife de fígado, medalhão, omelete, e se ele for espanhol, uns bons churritos. Imagine que o surgimento desse utensílio tão importante tenha ocorrido há centenas de anos, e que ele seja imortal e tenha feito isso por todo esse tempo sem se dar conta de que um outro alguém inventou o detergente, ou um terceiro ainda mais sábio deu origem ao Veja multi-uso. Pense que esse criador jamais apresentou o pano úmido ao fogão, de tão maravilhado que estava com sua filha frigideira. Pois eu conheci o fogão do criador da frigideira, e ele está aqui em Barcelona, no mesmo apartamento em que a ducha dinamarquesa trava uma guerra com o vaso sanitário.

Calma que sempre dá pra ficar pior. Acontece que o dono do piso era um velhinho muito simpático e querido. Contei um pouco da minha história pra ele, que estava estudando pela primeira vez na Espanha mas que já conhecia o país, que Madri era o máximo também e aquele forfait todo. E eis que a minha santa boca solta a sentença de morte: "Ai, adorei comer churros com chocolate em Madri, se tem uma coisa de que tenho saudade é dos churros de lá!". Mas pra que sentir saudades se se está diante de um ouvinte nativo e prevenido, não é mesmo minha gente? O querido tinha (adivinhem!) churros congelados na sua geladeira! E claro, como todo bom velhinho nacionalista, decidiu fritar uns fresquinhos pra mim naquela hora mesmo! Não se esqueçam que eu sou um menino fino e educado, não podia de maneira nenhuma recusar o convite (eu sou muito rápido pra essas coisas, mas foi tão de supetão que na hora não me veio qualquer desculpa à cabeça). Então respirei fundo, imaginei uma aura lilás em volta do meu corpo, encarnei o avestruz e me joguei chamando Jesus nos churros com chocolate do velhinho.

sábado, 3 de noviembre de 2007

O pingo e o i

Eu poderia dedicar esse texto a uma pessoa. Quiçá esse blog, quiçá toda a minha vida. Porque felizmente quem tem o mínimo de sensibilidade e capacidade de sonhar sempre guarda Aquela Pessoa em algum lugar do pensamento. A primeira com quem você se identificou de verdade, descobriu que é muito bom ter uma mão pra segurar, um rosto pra beijar, sentindo o seu calorzinho bem próximo. A primeira que mudou o matiz de cores que você enxergava, deixou o caminho de ponta-cabeça, te dedicou uma música que você nunca tinho ouvido e naquele momento lhe soou a mais linda do mundo. Felizes dos que têm memória, isso a gente pode comprovar vendo "Brilho eterno de uma mente sem lembranças".

Mas acontece que nem sempre as coisas rumam pro lado que a gente gostaria que rumassem. Ou porque encontramos Aquela Pessoa num momento absurdamente errado, ou porque depois as diferenças gritam tanto que fica impossível permanecer surdo a elas, ou simplesmente porque não tem que dar certo naquele instante, nem depois, nem nunca mais, pois Aquela Pessoa não é pra ser, e tem milhões de outras no mundo que serão melhores ou mais condizentes à nossa vida que Aquela. Óbvio que falar é fácil. Somente depois que o tufão passa e que ficamos desabrigados é que a dimensão do estrago se torna clara. Independentemente do resultado dessa passagem, o certo mesmo é que isso nos altera de forma irreversível. Ou A Pessoa vira um marco que para sempre será celebrado, com direito a bolo de aniversário ou coroa de flores, ou um ícone de eterna comparação para os outros infelizes que vêm depois dAquela Pessoa. Vira o seu feriado particular e o seu farol-guia. Isso é uma merda inenarrável.

Eu também tenho esse registro na minha existência, claro. E por casualidade esse ser humano vive na mesma cidade que eu agora, e nos cruzamos uma vez por mera distração do destino. Eu sei e ele sabe que nos cruzamos. Nosso tempo juntos foi muito forte pra nós dois, estou seguro disso. Só que hoje ele me odeia e me despreza e eu teria uma porção de coisas pra falar pra ele, caso estivesse disposto a ouvi-las, o que não é o caso. Isso está de certa maneira resolvido pra mim (tenho plena convicção de que a gente tem que resolver esse tipo de nó dentro do nosso cérebro inventivo, já que o outro jogador também carrega em si uma montanha de ilusões a nosso respeito e no fundo os dois estão muito enganados sobre o outro, porque construíram imagens interiores que lhe apateciam sobre o parceiro e depois ambos passam por toda uma rotina de brigas para tentar ajustar o imaginário ao real. Difícil assim, não? Mas é o que acontece, infelizmente. Dá pra ser mais ou menos neurótico, mas no fundinho do recôncavo do nosso ser está lá um cobrador voraz, com o caderninho em punho e a caneta em riste). Só que às vezes, mesmo depois de anos de superação dos traumas, a gente dá uns trupicos...

Bom, o que quero dizer é que a internet é uma maravilha e ao mesmo tempo uma maldição. Se tem um ditado que vale para a rede é "quem procura acha". Então eis que eu ontem estou à toa navegando, e entro no meu orkut pra ver meus recados. Leio, respondo e apago, e decido dar um giro pra ver quem está online e aquele bla bla bla todo. Coincidentemente, uma amiga em comum com Aquela Pessoa também está conectada e entro no seu perfil pra ver o que mudou. Entre seus agregados lá está vocês sabem quem. O dedinho, como quem não quer nada, desliza e acessa anonimamente o perfil dAquela Pessoa, e descobre que ela tem um blog, iniciado há mais tempo que eu, e que escreve um milhão de coisas lá, posta vídeos (ela está bem mais avançada que eu nesse sentido) etc. Descubro um video. Páro pra olhar e me transporto para 1999. E vejo Aquela Pessoa no auge de sua beleza, juventude, alegria (que ela não mostra pra todo mundo, mas sim camufla como pode enquanto transita pelo dia a dia. Seu ideal de vida é ser punk), irreverência, genialidade, loucura. Sinto a formação da tsunami dentro de mim, finjo que não é comigo, esboço um "interessante" com os lábios, desligo o computador e vou dormir pensando que sou um ótimo ator e que nem liguei pro que acaba de me acontecer. Afinal sou tão superior a isso tudo, não é mesmo minha gente?

A verdade é que não dormi bem. Tive sonhos confusos, uma angústia louca, e a água que jorrou na tsunami balançou tudo aqui dentro. Acordei com meu mar inteiro de ressaca. Eu queria muito poder falar. Com ele. Eu amo tudo o que a gente viveu e isso é uma bosta monstra sem precedentes, uma bomba tóxica, um lixo atômico. Uma névoa de carniça que me ronda. Ele é o fantasma e talvez somente ele tenha a chave que me libertará. O perdão é sua matéria para escambo, mas não sei quando me dará e se me dará. Minha cabeça dói pencas. Eu sempre penso que um dia isso vai terminar (a vida, essa coisa material na qual estamos encalacrados) e que vamos poder falar abertamente com as pessoas que convivemos, porque então seremos superiores a tudo e nossa compreensão estará mais próxima do celestial, do divino. Mas também pode ser uma tremenda bobagem da minha parte esperar que isso se resolva de forma tão prática e infantil.

Eu juro que penso em pará-lo na rua qualquer dia desses e falar com ele, lhe pedir minhas mais sinceras e dolorosas desculpas, lhe dizer que sinto tanto por ter sido tão fraco. Mas não há abertura pra isso hoje, então deixo estar e me consolo pensando que talvez um dia essas energias todas se encontrem e se resolvam por si só, sem a intervenção de qualquer verbo ou vocábulo, porque hoje de verdade eu acordei triste e não sei o que fazer a não ser escrever isso pra vocês.

viernes, 2 de noviembre de 2007

Vivendo e aprendendo a jogar

A minha vida inteira - veja, a minha vida inteira lutei contra a minha baixa auto-estima. É um problema crônico com o qual me acostumei a lidar, já tratei em terapia mas não tem jeito: é como fazer exercício físico, se você não treina, atrofia e uma hora acaba levando um tombo monstro ou tendo uma distensão. Ao contrário, se você está em constante movimento para que sua estima fique no topo, então tudo acontece.

Bom, eu estou amando as minhas aulas na Universidade, mas não posso mentir que elas às vezes me entediam um pouco. Ao menos nesse começo, pois estão explicando aos alunos (eu inclusive, claro) como lidar com direito autoral. De boa, é um assunto que me interessa, mas já estou esfalfado, careca, enjoado de saber. Desde as primeiras aulas só falam em como funciona a contratação de livros, a rotina de agência literária etc, e eu passei os últimos 3 anos da minha vida apenas vendo isso. Então chega uma hora em que eu pesco total na aula, porque para mim é como chover no molhado. Um truque que eu criei para ficar mais motivado em ir à uni e ver esse tipo de matéria é observar a cara de espanto dos meus colegas na hora em que algum professor solta uma palavra que para eles soa como inimaginável nesse lindo e poético universo da literatura. Outro dia o que os deixou de cabelo em pé foi o uso do termo "subasta" (nem sei se é assim que se escreve, enfim), ou seja, "leilão". Muitos deles sequer imaginavam que houvesse leilão de direitos de publicação de best-sellers, por exemplo, o que causou um alvoroço na sala e eu fiquei me deliciando de ver aquilo. Às vezes ainda me espanto sobre como tem gente ingênua no mundo, meu pai!

Lo que pasa es que na quarta-feira passei a manhã toda e um pedaço da tarde na mierda da cola (fila) pra tirar a carteira de estudante, uma espécia de RG de estrangeiro que os estudantes devem tirar e que lhes permite trabalhar legalmente no país. Bom, acontece que os espanhóis conseguem ser ainda mais desorganizados e lerdos que os funcionários públicos brasileiros, então chega essa época do ano em que hordas de universitários enlouquecidos chegam à Barcelona e tudo fica difícil: arrumar habitación (quarto) porque a concorrência é enorme, e tirar qualquer tipo de documento, pois as instituições do governo acham que fazem um favor gigante pra gente nos atendendo e tratam todo mundo feito gado. Pois bem, lá fui eu pra famosa cola do NIE (Número de Identificação Estudantil ou qualquer outra coisa do gênero), o umbral dos estrangeiros, e quase morri de tanto esperar a minha vez. Quando cheguei em casa, já sabendo que teria mais uma aula infindável sobre direito autoral na uni, pensei "hoje não tem jeito, vou dormir meeeeesmo". Estava podre.

Eis que me arrasto pra Pompeu Fabra e entro na aula com 5 min de atraso. Quando olho pra mesa do professor, é alguém diferente que vai falar sobre o assunto. Mais precisamente um escandinavo lin-díssimo, de pele vermelha de tão branco (A-DO-RO!), cabelos loiros ensebados (deixa eu pensar que estavam sob o efeito de gel, vai, só pra não destruir a minha fantasia) e desalinhados, com um terninho azul escuro, camisa branca com a gola desabotoada, óculos quadradinhos muito hype, e que atende pela alcunha (veja que fino) de Alexander Dobler. Entrei fazendo a linha "desculpe o atraso", ele abriu um sorrisão e indicou uma cadeira pra eu sentar. Desabei no assento, claro, mole de olhar para aquele homem gatíssimo. Então ele começou a falar sobre sua agência, que representa autores escandinavos e alemães, e em meros 5 minutos deu um show sobre os mercados literários em que atua. Eu fui me sentindo como se diminuísse no banco, pensando que estava tão longe daquele cara que mal podia enxergá-lo direito (a sala de aula geralmente fica meio que na penumbra para que os palestrantes possam exibir arquivos em powerpoint), que estava com vergonha de participar do debate que ele estava propondo porque não domino a língua local, enfim, minha estima murchou, murchou até virar um pozinho no canto perto da porta, quase que sendo arrastada pra fora pelo vento. Estava me sentindo completamente invisível e insignificante. Aí pensei que estava (e ainda estou) cheio de me sentir nulo e incapaz, que tenho um bom currículo, falo vários idiomas, sei desenhar, escrever, que sou sensível e principalmente estou realizando um sonho aqui em Barcelona, que consegui vir para esse país e havia me prometido que essa experiência seria para mudar definitivamente a minha vida, quebrar meus preconceitos e paradigmas e me transformar numa pessoa melhor, madura, consciente das minhas possibilidades. Vocês sabem que "crente" não é a melhor palavra que se aplica a mim, mas só sei que pensei "vou mudar esse sentimento agora" e tudo em volta se alterou de verdade.

O que se passou em seguida foi que Alexander propôs um exercício em grupo. Teríamos que nos reunir em 7 turmas, para discutir questões que responderíamos baseados em artigos de jornais e revistas que ele distribuiu pela classe. De saída, olhei para Ingrid e Maria, duas mexicanas que se sentam ao meu lado e lhes implorei socorro - eu ainda conheço muito pouca gente no meu curso. Elas, rapidíssimas, já haviam se juntado a outras meninas e o grupo delas estava cheio. Eu teria que me atirar entre as demais pessoas para ver quem ia me aceitar (NNNÃÃOOOO!!! Odeio isso!). Senti que alguém me olhava na mesa da frente: era Alexander, que virou pra mim e disse: "você vem pra essa turma aqui, eles precisam de mais duas pessoas". Detalhe: a mesa da tal turma era exatamente colada na dele! Claro que eu fui, porque não sou tonto, não é mesmo minha gente? E lá estava eu rumando para a felicidade total, primeiro porque ele tinha me escolhido entre as pessoas que estavam na classe, segundo porque ficaria perto dele, UEBA!

Entrei pra turma de duas colombianas (Carolina e Julia), fofíssimas, um catalão (Sergi, esquisitíssimo, mas querido), e "uma quinta elementa xis", cujo nome e nacionalidade não faço idéia até agora quais sejam (vocês já puderam perceber que ela suuper ajudou no grupo, né?). Bien, nossa tarefa era ler 3 artigos de jornal e escrever umas chamadas e um texto em inglês sobre o novo livro de um escritor malaguenho chamado Eduardo Caderón (estou curioso para ler a obra dele, agora) para vender o título a editoras internacionais. Seu segundo romance é intitulado "O segredo da porcelana", e nos artigos os repórteres davam vários dados sobre sua vida. Como em inglês eu me sinto muito mais confiante, disse a todos que apenas levantassem os pontos que julgassem relevantes e eu escreveria as chamadas e o texto em si. Com todos os grupos prontos Alexander começou a chamar um representante de cada turma para falar lá na frente. Sim, você leu direito: para falar lá na frente. Olhei pra cara de todos e cada um me dizia com o olhar: "você escreveu o texto, então vai lá na frente ler".

Terror total na classe. É incrível como tem gente que passa a vida inteira treinando para falar em público e acaba por se borrar numa circunstância dessas. Eu estava mais tenso porque falaria para aquele homem lindo do que para uma galera de 30 pessoas. Bom, os grupos começaram a desenvolver suas temáticas e ele enchia os representantes de perguntas. Saía cada coisa absurda, meu povo... Eu entendi aqueles coitados, porque tem situações no dia-a-dia de uma editora que só passando pra saber como é. O que sei é que ele devastou os alunos com perguntas que às vezes eles não tinham sequer idéa do que estavam respondendo. Não posso dar exemplos porque demoraria muito pra eu dar a legenda da piada aqui no blog, mas lhes asseguro que fiquei horrorizado. Tem muito neguinho lá que realmente ainda não sabe o que é uma editora, e quando souberem... pobres deles!

Quando chegou a minha vez, modéstia à parte... eu arrasei! Li as chamadas, o texto em inglês, e ele amou. Aí começou a fazer perguntas mais complexas, tipo porque nós havíamos escolhido aqueles pontos, em quais mercados era importante explorar a obra, quais avais tínhamos que ter pra conseguir vender o livro no exterior. E eu fui pontual e objetivo em cada uma das respostas. Só faltei receber chuva de palmas e um buquê de tulipas no final! Então, com esses pequenos progressos é que vejo o quanto é importante acreditarmos no nosso poder de transformação, sempre. Parece meio óbvio e piegas, mas é muito verdadeiro, em qualquer situação. Eu ainda vou ter mais aulas com Alexander Dobler, segundo meu cronograma. E estou apenas começando. ;-)

jueves, 1 de noviembre de 2007

Dois pisos na Torre de Babel

Meus 10 primeiros dias em Barça passei entre os pisos (apartamentos) da Silvia, minha amiga brasileira, e do Alessandro (seu namorado italiano). Como Davy, um dos moradores do piso do Ale (aqui se fala assim, sem acento no "e") estava em Paris (ele é francês, ainda que tenha traços chineses - seus pais são cambodjianos), então pude ficar lá desde a noite de quinta-feira, 11/10, quando cheguei, até o domingo seguinte.

No apartamento do Alessandro vivem, além dele e de Davy, Emilie (francesa) e Marina (espanhola). Ainda que não viva lá, quem também está constantemente na casa do Ale é Sarunas, o namorado lituano de Emilie (que é lin-do). Bem, então lo que pasa es que por todo o tempo minha cabeça se abilolava com tantos idiomas. Entre eles, Emilie e Sarunas se falam em inglês, porque ainda que ela arrase no espanhol, ele solta algumas palavras no idioma de forma sofrível. Com Davy ela fala em francês (os dois são conterrâneos, lembram?). Com Ale ela conversa em italiano (a menina é prodígio e morou dois anos na Itália, antes de se mudar para Barcelona). Já com Marina ela dialoga em castelhano mesmo, porque mal dá pra acreditar que ela não nasceu aqui, de tão perfeito que é seu espanhol. Ela só tropeça no sotaque parisiense quando fala inglês. A única que não fala nada é Amelie, a filha gata de Marina, uma bichana linda, de pêlos muito pretos, olhos verdes e garras pontudíssimas, que ela não tem o menor pudor de mostrar porque as afia diariamente em um pedaço de papelão que algum sádico deixou lá para ela brincar.

Nesse cenário "babelístico", não tinha como não dar um nó na minha cabeça. Isso sem contar os momentos em que andei pelas ruas: Barcelona está cheia de imigrantes, como qualquer grande metrópole mundial. Há muitos chineses, mexicanos, venezuelanos e principalmente paquistaneses por aqui. Os catalães já os chamam carinhosamente (?) de "pacs". Eles são os preferidos daquelas pessoas que se esquecem de abastecer a despensa e necessitam de algum produto de última hora. Ao contrário de São Paulo, aqui quase não há serviços 24 horas. Se você quer comer uma pizza ou um yakissoba às 23h, ou dá sorte de tê-los guardados na geladeira de casa, ou vai ter que comprar em algum pac aberto até tarde. Você acha que eles são nobres de trabalharem até tarde só para satisfazer desejos absurdos nas horas mais impróprias, certo? Errado. As mercadorias que eles vendem custam geralmente o dobro ou o triplo do preço de um mercado popular. Ou seja: os pacs existem só pra você não perder a massa de bolo quando esqueceu de comprar algum ingrediente adicional e já está com o serviço feito pela metade. Apesar disso, os pacs são muito amigáveis, se ajudam mutuamente e são extremamente simpáticos aos brasileiros.

O meu passatempo predileto quando estou num lugar onde não conheço ninguém é descobrir a nacionalidade das pessoas. É sempre uma incógnita. Ontem fui comprar um hidratante para o rosto (porque aqui se bobear a pele "craquela" em horas, ou seja, você fica com tudo descascando. Isso porque ainda estamos em uma das cidades mais úmidas da Europa, às margens do Mediterrâneo), e uma farmacêutica muito atenciosa e branca veio falar comigo. Seu nome é Natalie, e de saída notei que era pálida como porcelana e de olhos muito claros. Perguntei sobre os produtos para homens que haviam na loja e ela me mostrou um, dizendo: "ese es muy bueno porrrque hidrrata y al mismo tiempo cuida de las arrrrugas". Não agüentei e perguntei de onde era, já apostando intimamente que fosse alemã. Nada: ela é belga, de uma cidade ao norte do país. Foi tão convincente e querida que acabei comprando o creme que me indicou. E ainda vou voltar amanhã para comprar um outro, com filtro solar super potente.

Voltando ao apartmento do Ale, no domingo me mudei para o salon (sala de estar) da casa da Sil. Davy voltou da França e eu não podia mais ficar em seu quarto. Como Sil e Ale são vizinhos de parede colada, só empacotei o que havia tirado da mala e praticamente me dirigi ao cômodo do lado. Lá é um piso genuinamente brasileiro: moram além da Sil, Katí (Katia Ciccone, muito chique, ex-hostess do Skye e parente longínqua da Madonna, afinal têm o mesmo sobrenome e Katí tem cidadania italiana), Jessica (também brasileira, linda, que tem um irmão igualmente lindo e que se apresentou há poucos dias na boate Bikini, famosa de Barcelona. Ele era músico de Mariana Aydar no Brasil), Giuli (italiana, guapa e uma gracinha) e Marcello (ou Marce, também italiano e mal-humoradíssimo, o nosso famoso "chico-micrânia", ou "garoto-enxaqueca", como preferirem. Apesar da nuvem negra que sobrevoa diariamente a sua cabeça, ele tem um coração muito bom). Já conhecia a dona da casa e Katí (pois são amigas do Gustavo, meu ex-namorado), e rapidamente fiz amizade com os demais moradores. Mesmo estando na sala e eles chegando cada um no horário mais louco que o outro (de madrugada, inclusive, porque Sil e Katí são camareras - garçonetes - e trabalham à noite, até tarde), dormia feito uma pedra e os dias que passei lá foram muito bons para que pudéssemos conversar e descobrir mais sobre os outros.

Apesar de toda a hospitalidade com que me trataram, era hora de eu arrumar meu próprio piso. O melhor para isso aqui em Barcelona é procurar num site chamado loquo.com. Há vagas de todo tipo, inclusive de scort-boys (é divertido ficar vendo os anúncios com foto e tudo), e quartos que ficam vagos na cidade existem a todo momento. De tanto procurar a pé na primeira semana (ainda não me sentia muito confortável com o metrô daqui), acabei rompendo meu tendão esquerdo, que ficou muito inchado por dias a fio. Eu trouxe um par de botas e outros 2 de tênis, além de chinelos e sandálias. Nesse período só podia andar de botas, porque os tênis pegavam exatamente no meu tornozelo, que estava gigante. E a busca por habitación (quarto) é horrível, há cada coisa nesse mundo, minha gente... Conto num dos próximos posts. Por hoje é só.

martes, 30 de octubre de 2007

Caos aéreo? Só se for em Heathrow.

Pois é, minha gente. Depois de apenas 20 minutos aguardando dentro do avião em Cumbica (o que é um milagre em se tratando de tempo de espera para decolar no Brasil), cheguei em Londres na manhã do dia 11 de outubro esbudegado, claro. Ainda que tenha viajado de British Airways e ela seja considerada pelos mais críticos como a melhor companhia aérea do mundo, não tem como se sentir confortável naqueles assentos que parecem ter sido desenhados pela Branca de Neve especialmente para os sete anões. Ou seja: chega uma certa hora da noite quando tudo quanto é neguinho inevitavelmente enfia o pé no braço da sua poltrona, ou joga a chulapa no meio do corredor... Eu detesto vôo internacional. Não é como viajar de ônibus que tem o alento da janela. Depois que você decola, salvo algumas cidades que se pode ver ao longe, há um momento em que tudo que se pode ver é nada. Nuvens, escuridão, paisagem nula. Então passam alguns filmes batidos, ou novos ultracomerciais que não me despertam qualquer interesse. Mas o menu da British estava variado, e consegui até assistir um filme novíssimo sobre a vida de Edith Piaf (o final com a atriz cantando "Je ne regret rien" é de doer a alma de tão lindo), e uma animação em massinha MUITO MUITO ENGRAÇADA, chamada "Creatures comfort" (dêem uma olhada nesse link, é de rolar de rir: http://www.atomfilms.com/film/creature_comforts.jsp?channelKeyword=channel_best_aardman
Tem um tigre brasileiro reclamando de falta de espaço que é de passar mal de rir, mas só os que falam muito bem inglês vão entender, porque o sotaque dos dubladores é britânico e pesadíssimo. De todo modo, não deixe de ver, nem que seja para se divertir com as expressões dos bichinhos, que é genial).

Voltando ao meu vôo, chegamos em Heathrow às 8h. Para meu total desapontamento, notei que só pegaria o avião rumo a Barcelona às 14h45. Na chegada, estranhei um pouco a dificuldade que o piloto teve para descer em Londres, e ele avisou nos altofalantes que estava receoso por conta do nevoeiro. Meus amigos que viveram naquela cidade sempre reclamaram dessa fog horrível que deixa o dia cinzento e deprimente. De fato, quando a aeronave finalmente conseguiu atingir o solo, não se via um palmo a frente do nariz.

A questão é que meu vôo para a Espanha só sairia em algumas horas. Heathrow é incrível, com lojas fabulosas e gente linda circulando pra lá e pra cá. Os terminais são infindáveis e tem passageiros a caminho dos lugares mais distintos possíveis. Pra passar o longo tempo, por alguns minutos fiquei olhando para o painel que mostrava os horários das companhias aéreas e cada destino. Viena, Paris, Barcelona, Madrid, Amsterdã, Berlin, Oslo, Zurique, Roma, Atenas... E eu lá, contando quais delas já conhecia e quantas ainda vou conhecer. Que delícia devanear com esse tipo de pensamento. Viajar é uma das minhas maiores paixões. Acho que mesmo quando eu tiver 80 anos vou pensar em viajar. Às vezes tenho medo de que conheça o mundo todo e não tenha mais lugar pra conhecer, que bobagem, com esse globo tão vasto! Por alguns momentos sonho em ir à Lua, hahahaha, mas nem precisa, eu já sou lunático aqui na Terra mesmo.

Chegou um momento em que me entediei com o painel e fui andar. Tudo é lindo e moderno, mas os preços são de chorar. As ofertas deles são o preço normal que pagamos no Brasil, ainda mais em libra esterlina. Para comprar um sanduíche e um cartão telefônico internacional pensei cinco vezes. Péssimo, eu sei, mas até que ganhe em euros eu vou estar convertendo tudo o que consumir. Uma hora vai passar, eu sei, porque a conversão se torna um martírio, quase que uma doença. Mas deve ser como as câmeras do Big Brother: uma hora você se esquece do policiamento e faz uma cagada monstra. No meu caso, comprando um casaco de 300 euros achando que estou comprando um de R$ 300 (que já seria BEM caro). Mas ainda não fiz isso, embora tenha paquerado vários numas lojas maravilhosas por aqui.

Entendiado com o painel e as marcas caríssimas de Londres, comecei a olhar para os homens lindos que passavam. Minha nossa, como tem homem embasbacante na Europa! Todos leitões, como eu gosto (leia-se leitões aqueles homens brancos que de tão brancos chegam a reluzir, com olhos azuis ou verdes faiscantes). Passei muito mal, óbvio. As horas passavam lentamente (eu com sono, cansado, vigiando o que comprava para não enfiar o pé na jaca e atento ao painel para não perder a hora do vôo, que já estava atrasado), e os balcões da British Airways enchiam de gente tresloucada querendo saber a hora de sua partida. Simplesmente 3 vôos para Barcelona foram cancelados, sem contar os para os outros destinos... Heathrow estava em polvorosa, e eu preocupado com a Silvia, que me esperava em casa. Os londrinos estavam MUITO mal humorados.

Se bem que me termos de mal humor, ninguém bate os londrinos. Os espanhóis chegam bem perto às vezes, mas o povo inglês é insuperável nesse quesito. Havia um comissário no vôo São Paulo-Londres que era de cair o queixo no chão e alguém ainda passar por cima, mas o homem era o mais grosso que eu já conheci (no mal sentido, claro). Atendia a todos como se estivesse fazendo um imenso favor. Eu sofria para pedir um suco de laranja que fosse. Tinha uma brasileira gordita do meu lado que também se humilhava para pedir um café. Até que chegou uma hora em que eu apertei a tecla F e me esqueci que nessa vida existem as expressões "please", "I´d like to have", "thanks"... Não é que funcionou? Eu pedia água dizendo apenas "I need some water", e ele trazia parecendo um cachorrinho. A minha vizinha de banco também aprendeu o esquema e passamos a tratá-lo na base do chicote. Vai ver todos os ingleses são masoquistas, então você tem que aprender a ser sádico se quer se dar bem.

Felizmente a minha saga no aeroporto terminou com meu vôo saindo às 19h30 aproximadamente, e apesar de todo o atraso eu cheguei em Barcelona às 22h30 (só 6 horas além do que eu havia previsto, bobagem)! Silvia já estava acionando a polícia, ligando pra companhia aérea para saber se houvera algum atentado, e eu interrompi o show de uma amiga brasileira que ela estava vendo. Me senti culpado por tirá-la de lá, mas estava morto e precisava entrar no apartamento, tirar aquela roupa amarrotada, tomar um banho... minha maratona em Barça estava apenas começando. E você vai saber de tudo.