A minha vida inteira - veja, a minha vida inteira lutei contra a minha baixa auto-estima. É um problema crônico com o qual me acostumei a lidar, já tratei em terapia mas não tem jeito: é como fazer exercício físico, se você não treina, atrofia e uma hora acaba levando um tombo monstro ou tendo uma distensão. Ao contrário, se você está em constante movimento para que sua estima fique no topo, então tudo acontece.
Bom, eu estou amando as minhas aulas na Universidade, mas não posso mentir que elas às vezes me entediam um pouco. Ao menos nesse começo, pois estão explicando aos alunos (eu inclusive, claro) como lidar com direito autoral. De boa, é um assunto que me interessa, mas já estou esfalfado, careca, enjoado de saber. Desde as primeiras aulas só falam em como funciona a contratação de livros, a rotina de agência literária etc, e eu passei os últimos 3 anos da minha vida apenas vendo isso. Então chega uma hora em que eu pesco total na aula, porque para mim é como chover no molhado. Um truque que eu criei para ficar mais motivado em ir à uni e ver esse tipo de matéria é observar a cara de espanto dos meus colegas na hora em que algum professor solta uma palavra que para eles soa como inimaginável nesse lindo e poético universo da literatura. Outro dia o que os deixou de cabelo em pé foi o uso do termo "subasta" (nem sei se é assim que se escreve, enfim), ou seja, "leilão". Muitos deles sequer imaginavam que houvesse leilão de direitos de publicação de best-sellers, por exemplo, o que causou um alvoroço na sala e eu fiquei me deliciando de ver aquilo. Às vezes ainda me espanto sobre como tem gente ingênua no mundo, meu pai!
Lo que pasa es que na quarta-feira passei a manhã toda e um pedaço da tarde na mierda da cola (fila) pra tirar a carteira de estudante, uma espécia de RG de estrangeiro que os estudantes devem tirar e que lhes permite trabalhar legalmente no país. Bom, acontece que os espanhóis conseguem ser ainda mais desorganizados e lerdos que os funcionários públicos brasileiros, então chega essa época do ano em que hordas de universitários enlouquecidos chegam à Barcelona e tudo fica difícil: arrumar habitación (quarto) porque a concorrência é enorme, e tirar qualquer tipo de documento, pois as instituições do governo acham que fazem um favor gigante pra gente nos atendendo e tratam todo mundo feito gado. Pois bem, lá fui eu pra famosa cola do NIE (Número de Identificação Estudantil ou qualquer outra coisa do gênero), o umbral dos estrangeiros, e quase morri de tanto esperar a minha vez. Quando cheguei em casa, já sabendo que teria mais uma aula infindável sobre direito autoral na uni, pensei "hoje não tem jeito, vou dormir meeeeesmo". Estava podre.
Eis que me arrasto pra Pompeu Fabra e entro na aula com 5 min de atraso. Quando olho pra mesa do professor, é alguém diferente que vai falar sobre o assunto. Mais precisamente um escandinavo lin-díssimo, de pele vermelha de tão branco (A-DO-RO!), cabelos loiros ensebados (deixa eu pensar que estavam sob o efeito de gel, vai, só pra não destruir a minha fantasia) e desalinhados, com um terninho azul escuro, camisa branca com a gola desabotoada, óculos quadradinhos muito hype, e que atende pela alcunha (veja que fino) de Alexander Dobler. Entrei fazendo a linha "desculpe o atraso", ele abriu um sorrisão e indicou uma cadeira pra eu sentar. Desabei no assento, claro, mole de olhar para aquele homem gatíssimo. Então ele começou a falar sobre sua agência, que representa autores escandinavos e alemães, e em meros 5 minutos deu um show sobre os mercados literários em que atua. Eu fui me sentindo como se diminuísse no banco, pensando que estava tão longe daquele cara que mal podia enxergá-lo direito (a sala de aula geralmente fica meio que na penumbra para que os palestrantes possam exibir arquivos em powerpoint), que estava com vergonha de participar do debate que ele estava propondo porque não domino a língua local, enfim, minha estima murchou, murchou até virar um pozinho no canto perto da porta, quase que sendo arrastada pra fora pelo vento. Estava me sentindo completamente invisível e insignificante. Aí pensei que estava (e ainda estou) cheio de me sentir nulo e incapaz, que tenho um bom currículo, falo vários idiomas, sei desenhar, escrever, que sou sensível e principalmente estou realizando um sonho aqui em Barcelona, que consegui vir para esse país e havia me prometido que essa experiência seria para mudar definitivamente a minha vida, quebrar meus preconceitos e paradigmas e me transformar numa pessoa melhor, madura, consciente das minhas possibilidades. Vocês sabem que "crente" não é a melhor palavra que se aplica a mim, mas só sei que pensei "vou mudar esse sentimento agora" e tudo em volta se alterou de verdade.
O que se passou em seguida foi que Alexander propôs um exercício em grupo. Teríamos que nos reunir em 7 turmas, para discutir questões que responderíamos baseados em artigos de jornais e revistas que ele distribuiu pela classe. De saída, olhei para Ingrid e Maria, duas mexicanas que se sentam ao meu lado e lhes implorei socorro - eu ainda conheço muito pouca gente no meu curso. Elas, rapidíssimas, já haviam se juntado a outras meninas e o grupo delas estava cheio. Eu teria que me atirar entre as demais pessoas para ver quem ia me aceitar (NNNÃÃOOOO!!! Odeio isso!). Senti que alguém me olhava na mesa da frente: era Alexander, que virou pra mim e disse: "você vem pra essa turma aqui, eles precisam de mais duas pessoas". Detalhe: a mesa da tal turma era exatamente colada na dele! Claro que eu fui, porque não sou tonto, não é mesmo minha gente? E lá estava eu rumando para a felicidade total, primeiro porque ele tinha me escolhido entre as pessoas que estavam na classe, segundo porque ficaria perto dele, UEBA!
Entrei pra turma de duas colombianas (Carolina e Julia), fofíssimas, um catalão (Sergi, esquisitíssimo, mas querido), e "uma quinta elementa xis", cujo nome e nacionalidade não faço idéia até agora quais sejam (vocês já puderam perceber que ela suuper ajudou no grupo, né?). Bien, nossa tarefa era ler 3 artigos de jornal e escrever umas chamadas e um texto em inglês sobre o novo livro de um escritor malaguenho chamado Eduardo Caderón (estou curioso para ler a obra dele, agora) para vender o título a editoras internacionais. Seu segundo romance é intitulado "O segredo da porcelana", e nos artigos os repórteres davam vários dados sobre sua vida. Como em inglês eu me sinto muito mais confiante, disse a todos que apenas levantassem os pontos que julgassem relevantes e eu escreveria as chamadas e o texto em si. Com todos os grupos prontos Alexander começou a chamar um representante de cada turma para falar lá na frente. Sim, você leu direito: para falar lá na frente. Olhei pra cara de todos e cada um me dizia com o olhar: "você escreveu o texto, então vai lá na frente ler".
Terror total na classe. É incrível como tem gente que passa a vida inteira treinando para falar em público e acaba por se borrar numa circunstância dessas. Eu estava mais tenso porque falaria para aquele homem lindo do que para uma galera de 30 pessoas. Bom, os grupos começaram a desenvolver suas temáticas e ele enchia os representantes de perguntas. Saía cada coisa absurda, meu povo... Eu entendi aqueles coitados, porque tem situações no dia-a-dia de uma editora que só passando pra saber como é. O que sei é que ele devastou os alunos com perguntas que às vezes eles não tinham sequer idéa do que estavam respondendo. Não posso dar exemplos porque demoraria muito pra eu dar a legenda da piada aqui no blog, mas lhes asseguro que fiquei horrorizado. Tem muito neguinho lá que realmente ainda não sabe o que é uma editora, e quando souberem... pobres deles!
Quando chegou a minha vez, modéstia à parte... eu arrasei! Li as chamadas, o texto em inglês, e ele amou. Aí começou a fazer perguntas mais complexas, tipo porque nós havíamos escolhido aqueles pontos, em quais mercados era importante explorar a obra, quais avais tínhamos que ter pra conseguir vender o livro no exterior. E eu fui pontual e objetivo em cada uma das respostas. Só faltei receber chuva de palmas e um buquê de tulipas no final! Então, com esses pequenos progressos é que vejo o quanto é importante acreditarmos no nosso poder de transformação, sempre. Parece meio óbvio e piegas, mas é muito verdadeiro, em qualquer situação. Eu ainda vou ter mais aulas com Alexander Dobler, segundo meu cronograma. E estou apenas começando. ;-)
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1 comentario:
tá Meu Bem...Arrasando! Sempre.
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