jueves, 8 de noviembre de 2007

Seu Creysson

Hoje estou muito sucinto e só vou lhes dizer algumas poucas palavras:

Pregunta si el espacio donde hay vidrio esta limpio, al contrario podemos limpiarlo y poner alguna fragancia.

Sim, hablando en castellano, podem me chamar de Seu Craysson que eu contesto (atendo).

domingo, 4 de noviembre de 2007

Churros com chocolate

Procurar piso (apartamento) aqui em Barcelona é uma das aventuras mais bizarras que existem, mas pode ser muito divertido se você é como eu e adora espiar as casas dos outros. Tudo começa nos sites de busca daqui. O mais famoso é o loquo.com, que não só te possibilita encontrar anúncios de habitaciones (quartos) vagos, como também zilhões de outros serviços. Agora vou me deter mesmo é na busca de pisos.

Há sempre muitos cômodos e apartamentos disponíveis para alugar na cidade. Com a alta rotatividade de turistas e estudantes, os anúncios de quarto vago pipocam aos montes todos os dias nos sites de busca, então basta você definir alguns critérios e a aventura tem início. No meu caso, coloquei lá que buscava algo que me custasse entre 200 e 350 euros e as localidades próximas da casa da Silvia ou em bairros centrais de Barcelona. Já que eu ia ter que pagar aluguel, que pelo menos não tivesse que ter gastos adicionais com transporte, certo? No começo não me importei mesmo com critérios (quem me ajudou nisso foi o Alessandro, heteríssimo, então para ele só importava a proximidade do lugar).

O primeiro local que visitei ficava no Paseo de Pujades, uma avenida arborizada e bem bonita. O aluguel custava €300. Liguei para o responsável pelo piso e marquei com ele às 10h do sábado, mesmo porque cheguei numa quinta, mas como todos trabalham o dia inteiro fica mais fácil procurar vagas em apartamentos aos sábados. Quando localizei o início do Paseo de Pujades, estranhei a beleza da rua e o fato de o aluguel ser tão barato. Mesmo assim fui em frente.

Cheguei no prédio, que não era feio, e quando me preparava para adentrar uma moça que acabara de estacionar sua bicicleta na calçada me pediu que segurasse a porta pra ela entrar também. Achei uma coincidência engraçadinha ela poder chegar com a bici e ter alguém para segurar a porta para ela. Entramos. Chegou o elevador, apertei o botão que indicava o quinto andar. Ela me olhou espantada e disse que também ia pra lá. Não me lembro qual era a porta para qual eu teria que me dirigir, mas ela também ia para o mesmo local. Percebemos a coincidência, demos um risinho amarelo e ela me perguntou: "¿tu también estas aqui para conocer la habitación para alquiler?". Eu respondi que sim e os dois ficaram ligeiramente impressionados com a impessoalidade do tratamento recebido. Impessoalidade era pouco: chegamos e um cara com traços indígenas (provavelmente de algum país da América Latina) nos recebeu, e pediu que aguardássemos no salón (sala de estar). No cômodo, havia uma televisão ligada no jornal da manhã da TV espanhola, e bem diante dela uma mesa com uma toalha quadriculada à la cantina italiana de quinta categoria. Um geladeira ficava espremida entre um armário com portas que não se acabavam mais, e pessoas de pijama circulavam pelo local, sacavam comida da geladeira e nos sorriam desconcertadas. No sofá velho com uma capa marrom por cima, uma mulher muito branca e loira esperava sua vez de conhecer a habitacion, ao lado de um menino possivelmente japonês que fazia o mesmo. Me sentei ao lado deles tentando esconder a minha estupefação e esperei a minha vez.

Então o tal Fernando, com quem eu marquei de conhecer o quarto e era o homem com cara de índio, me chamou pelo nome (oohh!) e me pediu para acompanhá-lo. Lá fui eu para um cubículo de uns 2X3m, com uma cama de meio solteiro (lamento, mas nem o Johnny Luxo de lado caberia naquilo) e um armário acoplado à parede, e a ventana, claro, era al interior (aqui há ventanas - janelas - que dão para um átrio de dentro do prédio, portanto al interior, e outras que dão ao exterior, que não é preciso explicar, certo?). Ele me lançou um olhar de indagação do tipo "¿te gustas?" e eu novamente usei meu sorriso amarelo e disse: "voy a piensar se me quedo con la habitacion y cualquier cosa llamote, ¿vale? Gracias". Não preciso dizer que não voltei mais àquela espelunca e nem sequer dei sinal de vida, né? Quando estava pra sair do prédio, a mulher da bicicleta estava na portaria e me perguntou o que eu estava pensando daquilo. Eu fui super sincero e disse "Claro que no voy a quedarme con la habitación. ¡Es mucho impersonal!". Ela então me disse que era argentina, estava tentando alugar um piso só pra ela e que alugaria os outros quartos, se eu não queria lhe passar meu e-mail para que me chamasse quando tivesse algo alugado. Eu pra ser simpático olhei bem pra cara maquiada dela, rodeada de uns cabelos descoloridos e com a raiz aparecendo e respondi: "¡Por supuesto! Fuimos vecinos (vizinhos) en America Latina y podemos ser vecinos aqui también". Ela ficou felicíssima, anotou meu e-mail e saiu serelepe com sua bici branca. E eu pensei com meus botões "até essa louca conseguir alugar algo eu já estarei alojadíssimo".

Soube depois pelo Ale que há apartamentos gigantescos como aquele que visitei que os donos simplesmente contratam alguém de uma imobiliária ou de uma agência e colocam pra tomar conta e alugar daquela maneira como se estivessem vendendo banana. Claro que passava longe do tipo de acolhida que eu esperava obter. Então continuei a procurar, e foi uma sucessão de desastres. Vou contar só alguns bem peculiares para que vocês não pensem que Barcelona é inabitável e que a humanidade está perdida. Em um que ficava em Vallcarca (um bairro ao lado do famoso Park Güell, com uns prédios bem bonitos e uma vista arrasadora de toda a cidade), moravam uns meninos, digamos, bem pouco higiênicos. Entrei no apartamento e dei de cara com o dono esparramado no sofá, com um cobertor xadrez até as orelhas e uma pilha de lenços Kleenex ao lado dele. O nariz de pimentão já denunciava que ele estava quase morto de tanta gripe, e como não podia me atender um italianinho (beem bonitinho, saradinho, com um nariz esculpido desse tamaninho e bem machinho) que estava de saída do apartamento me mostrou o lugar. Havia migalhas de pão em todos os corredores da casa, ao menos um copo sujo em cada cômodo, uma samambaia descontrolada ameaçava devorar quem se aproximasse da terrassa (varanda), o forno estava sem porta e todo negro como que se um coquetel molotov tivesse explodido lá dentro ("el horno no funciona, pero vamos a arreglarlo esa semana sin retardo", me jurou ele), dos dois banheiros apenas um funcionava porém estava inutilizável devido à quantidade de pêlos que se amontava pelo chão, colados às gotas de xixi que faziam uma corrente ao redor do vaso sanitário, mas a habitacion em si era média, iluminada e ainda continha uma varanda, ó-te-ma pra se jogar depois de ver todas, eu disse todas as quatro paredes forradas de cima a baixo com fotos de mulheres peladas. Era muita coisa para um só estômago, no caso o meu. Mais uma vez agradeci e disse que ligaria caso me interessasse em ficar com o quarto, e sumi o mais rápido que pude.

Em um outro, cuja planta fora desenhada inspirada numa tripa (sabe aqueles apartamentos de comprido que para chegar no quarto você faz um tour obrigatório pela casa toda?), havia duas coisas extraordinárias: primeiro, o proprietário teve a idéia genial de instalar uma ducha dinamarquesa no banheiro. É aquela na qual você entra num tipo de espiral toda furada, que jorra água a todo vapor no corpo inteiro ao mesmo tempo. Uma delícia, não? Pois é. Só que para ter aquilo e não lavar o recinto todo enquanto você toma banho, é necessário instalar uma espécie de tubo que circunda a espiral e impede que um tornado aquático destrua o ambiente. Ainda assim estaríamos bem se se descontasse o fato de que o banheiro tinha uma área minúscula, e que pra conseguir ter o bendito tubo em volta da ducha espremeu-se a coitada da privada num canto tão diminuto que a pessoa tinha que fazer uma torção no tronco para conseguir castigar a porcelana, se é que me entendem, já que não há ser humano no mundo que tenha um ombro tão estreito que caiba naquele espaço pífio. Não me imaginei lendo o jornal ali pela manhã, definitivamente.

Nesse apartamento tão bem planejado, o pior ainda estava por vir. Imaginem o momento da criação da frigideira. Agora, o criador a colocando pra funcionar, jogando óleo nela e fritando um ovo, satisfeito de ter sido tão criativo. Em seguida, ele frita uma linguïça. E depois bacon, salsichas, bife de fígado, medalhão, omelete, e se ele for espanhol, uns bons churritos. Imagine que o surgimento desse utensílio tão importante tenha ocorrido há centenas de anos, e que ele seja imortal e tenha feito isso por todo esse tempo sem se dar conta de que um outro alguém inventou o detergente, ou um terceiro ainda mais sábio deu origem ao Veja multi-uso. Pense que esse criador jamais apresentou o pano úmido ao fogão, de tão maravilhado que estava com sua filha frigideira. Pois eu conheci o fogão do criador da frigideira, e ele está aqui em Barcelona, no mesmo apartamento em que a ducha dinamarquesa trava uma guerra com o vaso sanitário.

Calma que sempre dá pra ficar pior. Acontece que o dono do piso era um velhinho muito simpático e querido. Contei um pouco da minha história pra ele, que estava estudando pela primeira vez na Espanha mas que já conhecia o país, que Madri era o máximo também e aquele forfait todo. E eis que a minha santa boca solta a sentença de morte: "Ai, adorei comer churros com chocolate em Madri, se tem uma coisa de que tenho saudade é dos churros de lá!". Mas pra que sentir saudades se se está diante de um ouvinte nativo e prevenido, não é mesmo minha gente? O querido tinha (adivinhem!) churros congelados na sua geladeira! E claro, como todo bom velhinho nacionalista, decidiu fritar uns fresquinhos pra mim naquela hora mesmo! Não se esqueçam que eu sou um menino fino e educado, não podia de maneira nenhuma recusar o convite (eu sou muito rápido pra essas coisas, mas foi tão de supetão que na hora não me veio qualquer desculpa à cabeça). Então respirei fundo, imaginei uma aura lilás em volta do meu corpo, encarnei o avestruz e me joguei chamando Jesus nos churros com chocolate do velhinho.

sábado, 3 de noviembre de 2007

O pingo e o i

Eu poderia dedicar esse texto a uma pessoa. Quiçá esse blog, quiçá toda a minha vida. Porque felizmente quem tem o mínimo de sensibilidade e capacidade de sonhar sempre guarda Aquela Pessoa em algum lugar do pensamento. A primeira com quem você se identificou de verdade, descobriu que é muito bom ter uma mão pra segurar, um rosto pra beijar, sentindo o seu calorzinho bem próximo. A primeira que mudou o matiz de cores que você enxergava, deixou o caminho de ponta-cabeça, te dedicou uma música que você nunca tinho ouvido e naquele momento lhe soou a mais linda do mundo. Felizes dos que têm memória, isso a gente pode comprovar vendo "Brilho eterno de uma mente sem lembranças".

Mas acontece que nem sempre as coisas rumam pro lado que a gente gostaria que rumassem. Ou porque encontramos Aquela Pessoa num momento absurdamente errado, ou porque depois as diferenças gritam tanto que fica impossível permanecer surdo a elas, ou simplesmente porque não tem que dar certo naquele instante, nem depois, nem nunca mais, pois Aquela Pessoa não é pra ser, e tem milhões de outras no mundo que serão melhores ou mais condizentes à nossa vida que Aquela. Óbvio que falar é fácil. Somente depois que o tufão passa e que ficamos desabrigados é que a dimensão do estrago se torna clara. Independentemente do resultado dessa passagem, o certo mesmo é que isso nos altera de forma irreversível. Ou A Pessoa vira um marco que para sempre será celebrado, com direito a bolo de aniversário ou coroa de flores, ou um ícone de eterna comparação para os outros infelizes que vêm depois dAquela Pessoa. Vira o seu feriado particular e o seu farol-guia. Isso é uma merda inenarrável.

Eu também tenho esse registro na minha existência, claro. E por casualidade esse ser humano vive na mesma cidade que eu agora, e nos cruzamos uma vez por mera distração do destino. Eu sei e ele sabe que nos cruzamos. Nosso tempo juntos foi muito forte pra nós dois, estou seguro disso. Só que hoje ele me odeia e me despreza e eu teria uma porção de coisas pra falar pra ele, caso estivesse disposto a ouvi-las, o que não é o caso. Isso está de certa maneira resolvido pra mim (tenho plena convicção de que a gente tem que resolver esse tipo de nó dentro do nosso cérebro inventivo, já que o outro jogador também carrega em si uma montanha de ilusões a nosso respeito e no fundo os dois estão muito enganados sobre o outro, porque construíram imagens interiores que lhe apateciam sobre o parceiro e depois ambos passam por toda uma rotina de brigas para tentar ajustar o imaginário ao real. Difícil assim, não? Mas é o que acontece, infelizmente. Dá pra ser mais ou menos neurótico, mas no fundinho do recôncavo do nosso ser está lá um cobrador voraz, com o caderninho em punho e a caneta em riste). Só que às vezes, mesmo depois de anos de superação dos traumas, a gente dá uns trupicos...

Bom, o que quero dizer é que a internet é uma maravilha e ao mesmo tempo uma maldição. Se tem um ditado que vale para a rede é "quem procura acha". Então eis que eu ontem estou à toa navegando, e entro no meu orkut pra ver meus recados. Leio, respondo e apago, e decido dar um giro pra ver quem está online e aquele bla bla bla todo. Coincidentemente, uma amiga em comum com Aquela Pessoa também está conectada e entro no seu perfil pra ver o que mudou. Entre seus agregados lá está vocês sabem quem. O dedinho, como quem não quer nada, desliza e acessa anonimamente o perfil dAquela Pessoa, e descobre que ela tem um blog, iniciado há mais tempo que eu, e que escreve um milhão de coisas lá, posta vídeos (ela está bem mais avançada que eu nesse sentido) etc. Descubro um video. Páro pra olhar e me transporto para 1999. E vejo Aquela Pessoa no auge de sua beleza, juventude, alegria (que ela não mostra pra todo mundo, mas sim camufla como pode enquanto transita pelo dia a dia. Seu ideal de vida é ser punk), irreverência, genialidade, loucura. Sinto a formação da tsunami dentro de mim, finjo que não é comigo, esboço um "interessante" com os lábios, desligo o computador e vou dormir pensando que sou um ótimo ator e que nem liguei pro que acaba de me acontecer. Afinal sou tão superior a isso tudo, não é mesmo minha gente?

A verdade é que não dormi bem. Tive sonhos confusos, uma angústia louca, e a água que jorrou na tsunami balançou tudo aqui dentro. Acordei com meu mar inteiro de ressaca. Eu queria muito poder falar. Com ele. Eu amo tudo o que a gente viveu e isso é uma bosta monstra sem precedentes, uma bomba tóxica, um lixo atômico. Uma névoa de carniça que me ronda. Ele é o fantasma e talvez somente ele tenha a chave que me libertará. O perdão é sua matéria para escambo, mas não sei quando me dará e se me dará. Minha cabeça dói pencas. Eu sempre penso que um dia isso vai terminar (a vida, essa coisa material na qual estamos encalacrados) e que vamos poder falar abertamente com as pessoas que convivemos, porque então seremos superiores a tudo e nossa compreensão estará mais próxima do celestial, do divino. Mas também pode ser uma tremenda bobagem da minha parte esperar que isso se resolva de forma tão prática e infantil.

Eu juro que penso em pará-lo na rua qualquer dia desses e falar com ele, lhe pedir minhas mais sinceras e dolorosas desculpas, lhe dizer que sinto tanto por ter sido tão fraco. Mas não há abertura pra isso hoje, então deixo estar e me consolo pensando que talvez um dia essas energias todas se encontrem e se resolvam por si só, sem a intervenção de qualquer verbo ou vocábulo, porque hoje de verdade eu acordei triste e não sei o que fazer a não ser escrever isso pra vocês.

viernes, 2 de noviembre de 2007

Vivendo e aprendendo a jogar

A minha vida inteira - veja, a minha vida inteira lutei contra a minha baixa auto-estima. É um problema crônico com o qual me acostumei a lidar, já tratei em terapia mas não tem jeito: é como fazer exercício físico, se você não treina, atrofia e uma hora acaba levando um tombo monstro ou tendo uma distensão. Ao contrário, se você está em constante movimento para que sua estima fique no topo, então tudo acontece.

Bom, eu estou amando as minhas aulas na Universidade, mas não posso mentir que elas às vezes me entediam um pouco. Ao menos nesse começo, pois estão explicando aos alunos (eu inclusive, claro) como lidar com direito autoral. De boa, é um assunto que me interessa, mas já estou esfalfado, careca, enjoado de saber. Desde as primeiras aulas só falam em como funciona a contratação de livros, a rotina de agência literária etc, e eu passei os últimos 3 anos da minha vida apenas vendo isso. Então chega uma hora em que eu pesco total na aula, porque para mim é como chover no molhado. Um truque que eu criei para ficar mais motivado em ir à uni e ver esse tipo de matéria é observar a cara de espanto dos meus colegas na hora em que algum professor solta uma palavra que para eles soa como inimaginável nesse lindo e poético universo da literatura. Outro dia o que os deixou de cabelo em pé foi o uso do termo "subasta" (nem sei se é assim que se escreve, enfim), ou seja, "leilão". Muitos deles sequer imaginavam que houvesse leilão de direitos de publicação de best-sellers, por exemplo, o que causou um alvoroço na sala e eu fiquei me deliciando de ver aquilo. Às vezes ainda me espanto sobre como tem gente ingênua no mundo, meu pai!

Lo que pasa es que na quarta-feira passei a manhã toda e um pedaço da tarde na mierda da cola (fila) pra tirar a carteira de estudante, uma espécia de RG de estrangeiro que os estudantes devem tirar e que lhes permite trabalhar legalmente no país. Bom, acontece que os espanhóis conseguem ser ainda mais desorganizados e lerdos que os funcionários públicos brasileiros, então chega essa época do ano em que hordas de universitários enlouquecidos chegam à Barcelona e tudo fica difícil: arrumar habitación (quarto) porque a concorrência é enorme, e tirar qualquer tipo de documento, pois as instituições do governo acham que fazem um favor gigante pra gente nos atendendo e tratam todo mundo feito gado. Pois bem, lá fui eu pra famosa cola do NIE (Número de Identificação Estudantil ou qualquer outra coisa do gênero), o umbral dos estrangeiros, e quase morri de tanto esperar a minha vez. Quando cheguei em casa, já sabendo que teria mais uma aula infindável sobre direito autoral na uni, pensei "hoje não tem jeito, vou dormir meeeeesmo". Estava podre.

Eis que me arrasto pra Pompeu Fabra e entro na aula com 5 min de atraso. Quando olho pra mesa do professor, é alguém diferente que vai falar sobre o assunto. Mais precisamente um escandinavo lin-díssimo, de pele vermelha de tão branco (A-DO-RO!), cabelos loiros ensebados (deixa eu pensar que estavam sob o efeito de gel, vai, só pra não destruir a minha fantasia) e desalinhados, com um terninho azul escuro, camisa branca com a gola desabotoada, óculos quadradinhos muito hype, e que atende pela alcunha (veja que fino) de Alexander Dobler. Entrei fazendo a linha "desculpe o atraso", ele abriu um sorrisão e indicou uma cadeira pra eu sentar. Desabei no assento, claro, mole de olhar para aquele homem gatíssimo. Então ele começou a falar sobre sua agência, que representa autores escandinavos e alemães, e em meros 5 minutos deu um show sobre os mercados literários em que atua. Eu fui me sentindo como se diminuísse no banco, pensando que estava tão longe daquele cara que mal podia enxergá-lo direito (a sala de aula geralmente fica meio que na penumbra para que os palestrantes possam exibir arquivos em powerpoint), que estava com vergonha de participar do debate que ele estava propondo porque não domino a língua local, enfim, minha estima murchou, murchou até virar um pozinho no canto perto da porta, quase que sendo arrastada pra fora pelo vento. Estava me sentindo completamente invisível e insignificante. Aí pensei que estava (e ainda estou) cheio de me sentir nulo e incapaz, que tenho um bom currículo, falo vários idiomas, sei desenhar, escrever, que sou sensível e principalmente estou realizando um sonho aqui em Barcelona, que consegui vir para esse país e havia me prometido que essa experiência seria para mudar definitivamente a minha vida, quebrar meus preconceitos e paradigmas e me transformar numa pessoa melhor, madura, consciente das minhas possibilidades. Vocês sabem que "crente" não é a melhor palavra que se aplica a mim, mas só sei que pensei "vou mudar esse sentimento agora" e tudo em volta se alterou de verdade.

O que se passou em seguida foi que Alexander propôs um exercício em grupo. Teríamos que nos reunir em 7 turmas, para discutir questões que responderíamos baseados em artigos de jornais e revistas que ele distribuiu pela classe. De saída, olhei para Ingrid e Maria, duas mexicanas que se sentam ao meu lado e lhes implorei socorro - eu ainda conheço muito pouca gente no meu curso. Elas, rapidíssimas, já haviam se juntado a outras meninas e o grupo delas estava cheio. Eu teria que me atirar entre as demais pessoas para ver quem ia me aceitar (NNNÃÃOOOO!!! Odeio isso!). Senti que alguém me olhava na mesa da frente: era Alexander, que virou pra mim e disse: "você vem pra essa turma aqui, eles precisam de mais duas pessoas". Detalhe: a mesa da tal turma era exatamente colada na dele! Claro que eu fui, porque não sou tonto, não é mesmo minha gente? E lá estava eu rumando para a felicidade total, primeiro porque ele tinha me escolhido entre as pessoas que estavam na classe, segundo porque ficaria perto dele, UEBA!

Entrei pra turma de duas colombianas (Carolina e Julia), fofíssimas, um catalão (Sergi, esquisitíssimo, mas querido), e "uma quinta elementa xis", cujo nome e nacionalidade não faço idéia até agora quais sejam (vocês já puderam perceber que ela suuper ajudou no grupo, né?). Bien, nossa tarefa era ler 3 artigos de jornal e escrever umas chamadas e um texto em inglês sobre o novo livro de um escritor malaguenho chamado Eduardo Caderón (estou curioso para ler a obra dele, agora) para vender o título a editoras internacionais. Seu segundo romance é intitulado "O segredo da porcelana", e nos artigos os repórteres davam vários dados sobre sua vida. Como em inglês eu me sinto muito mais confiante, disse a todos que apenas levantassem os pontos que julgassem relevantes e eu escreveria as chamadas e o texto em si. Com todos os grupos prontos Alexander começou a chamar um representante de cada turma para falar lá na frente. Sim, você leu direito: para falar lá na frente. Olhei pra cara de todos e cada um me dizia com o olhar: "você escreveu o texto, então vai lá na frente ler".

Terror total na classe. É incrível como tem gente que passa a vida inteira treinando para falar em público e acaba por se borrar numa circunstância dessas. Eu estava mais tenso porque falaria para aquele homem lindo do que para uma galera de 30 pessoas. Bom, os grupos começaram a desenvolver suas temáticas e ele enchia os representantes de perguntas. Saía cada coisa absurda, meu povo... Eu entendi aqueles coitados, porque tem situações no dia-a-dia de uma editora que só passando pra saber como é. O que sei é que ele devastou os alunos com perguntas que às vezes eles não tinham sequer idéa do que estavam respondendo. Não posso dar exemplos porque demoraria muito pra eu dar a legenda da piada aqui no blog, mas lhes asseguro que fiquei horrorizado. Tem muito neguinho lá que realmente ainda não sabe o que é uma editora, e quando souberem... pobres deles!

Quando chegou a minha vez, modéstia à parte... eu arrasei! Li as chamadas, o texto em inglês, e ele amou. Aí começou a fazer perguntas mais complexas, tipo porque nós havíamos escolhido aqueles pontos, em quais mercados era importante explorar a obra, quais avais tínhamos que ter pra conseguir vender o livro no exterior. E eu fui pontual e objetivo em cada uma das respostas. Só faltei receber chuva de palmas e um buquê de tulipas no final! Então, com esses pequenos progressos é que vejo o quanto é importante acreditarmos no nosso poder de transformação, sempre. Parece meio óbvio e piegas, mas é muito verdadeiro, em qualquer situação. Eu ainda vou ter mais aulas com Alexander Dobler, segundo meu cronograma. E estou apenas começando. ;-)

jueves, 1 de noviembre de 2007

Dois pisos na Torre de Babel

Meus 10 primeiros dias em Barça passei entre os pisos (apartamentos) da Silvia, minha amiga brasileira, e do Alessandro (seu namorado italiano). Como Davy, um dos moradores do piso do Ale (aqui se fala assim, sem acento no "e") estava em Paris (ele é francês, ainda que tenha traços chineses - seus pais são cambodjianos), então pude ficar lá desde a noite de quinta-feira, 11/10, quando cheguei, até o domingo seguinte.

No apartamento do Alessandro vivem, além dele e de Davy, Emilie (francesa) e Marina (espanhola). Ainda que não viva lá, quem também está constantemente na casa do Ale é Sarunas, o namorado lituano de Emilie (que é lin-do). Bem, então lo que pasa es que por todo o tempo minha cabeça se abilolava com tantos idiomas. Entre eles, Emilie e Sarunas se falam em inglês, porque ainda que ela arrase no espanhol, ele solta algumas palavras no idioma de forma sofrível. Com Davy ela fala em francês (os dois são conterrâneos, lembram?). Com Ale ela conversa em italiano (a menina é prodígio e morou dois anos na Itália, antes de se mudar para Barcelona). Já com Marina ela dialoga em castelhano mesmo, porque mal dá pra acreditar que ela não nasceu aqui, de tão perfeito que é seu espanhol. Ela só tropeça no sotaque parisiense quando fala inglês. A única que não fala nada é Amelie, a filha gata de Marina, uma bichana linda, de pêlos muito pretos, olhos verdes e garras pontudíssimas, que ela não tem o menor pudor de mostrar porque as afia diariamente em um pedaço de papelão que algum sádico deixou lá para ela brincar.

Nesse cenário "babelístico", não tinha como não dar um nó na minha cabeça. Isso sem contar os momentos em que andei pelas ruas: Barcelona está cheia de imigrantes, como qualquer grande metrópole mundial. Há muitos chineses, mexicanos, venezuelanos e principalmente paquistaneses por aqui. Os catalães já os chamam carinhosamente (?) de "pacs". Eles são os preferidos daquelas pessoas que se esquecem de abastecer a despensa e necessitam de algum produto de última hora. Ao contrário de São Paulo, aqui quase não há serviços 24 horas. Se você quer comer uma pizza ou um yakissoba às 23h, ou dá sorte de tê-los guardados na geladeira de casa, ou vai ter que comprar em algum pac aberto até tarde. Você acha que eles são nobres de trabalharem até tarde só para satisfazer desejos absurdos nas horas mais impróprias, certo? Errado. As mercadorias que eles vendem custam geralmente o dobro ou o triplo do preço de um mercado popular. Ou seja: os pacs existem só pra você não perder a massa de bolo quando esqueceu de comprar algum ingrediente adicional e já está com o serviço feito pela metade. Apesar disso, os pacs são muito amigáveis, se ajudam mutuamente e são extremamente simpáticos aos brasileiros.

O meu passatempo predileto quando estou num lugar onde não conheço ninguém é descobrir a nacionalidade das pessoas. É sempre uma incógnita. Ontem fui comprar um hidratante para o rosto (porque aqui se bobear a pele "craquela" em horas, ou seja, você fica com tudo descascando. Isso porque ainda estamos em uma das cidades mais úmidas da Europa, às margens do Mediterrâneo), e uma farmacêutica muito atenciosa e branca veio falar comigo. Seu nome é Natalie, e de saída notei que era pálida como porcelana e de olhos muito claros. Perguntei sobre os produtos para homens que haviam na loja e ela me mostrou um, dizendo: "ese es muy bueno porrrque hidrrata y al mismo tiempo cuida de las arrrrugas". Não agüentei e perguntei de onde era, já apostando intimamente que fosse alemã. Nada: ela é belga, de uma cidade ao norte do país. Foi tão convincente e querida que acabei comprando o creme que me indicou. E ainda vou voltar amanhã para comprar um outro, com filtro solar super potente.

Voltando ao apartmento do Ale, no domingo me mudei para o salon (sala de estar) da casa da Sil. Davy voltou da França e eu não podia mais ficar em seu quarto. Como Sil e Ale são vizinhos de parede colada, só empacotei o que havia tirado da mala e praticamente me dirigi ao cômodo do lado. Lá é um piso genuinamente brasileiro: moram além da Sil, Katí (Katia Ciccone, muito chique, ex-hostess do Skye e parente longínqua da Madonna, afinal têm o mesmo sobrenome e Katí tem cidadania italiana), Jessica (também brasileira, linda, que tem um irmão igualmente lindo e que se apresentou há poucos dias na boate Bikini, famosa de Barcelona. Ele era músico de Mariana Aydar no Brasil), Giuli (italiana, guapa e uma gracinha) e Marcello (ou Marce, também italiano e mal-humoradíssimo, o nosso famoso "chico-micrânia", ou "garoto-enxaqueca", como preferirem. Apesar da nuvem negra que sobrevoa diariamente a sua cabeça, ele tem um coração muito bom). Já conhecia a dona da casa e Katí (pois são amigas do Gustavo, meu ex-namorado), e rapidamente fiz amizade com os demais moradores. Mesmo estando na sala e eles chegando cada um no horário mais louco que o outro (de madrugada, inclusive, porque Sil e Katí são camareras - garçonetes - e trabalham à noite, até tarde), dormia feito uma pedra e os dias que passei lá foram muito bons para que pudéssemos conversar e descobrir mais sobre os outros.

Apesar de toda a hospitalidade com que me trataram, era hora de eu arrumar meu próprio piso. O melhor para isso aqui em Barcelona é procurar num site chamado loquo.com. Há vagas de todo tipo, inclusive de scort-boys (é divertido ficar vendo os anúncios com foto e tudo), e quartos que ficam vagos na cidade existem a todo momento. De tanto procurar a pé na primeira semana (ainda não me sentia muito confortável com o metrô daqui), acabei rompendo meu tendão esquerdo, que ficou muito inchado por dias a fio. Eu trouxe um par de botas e outros 2 de tênis, além de chinelos e sandálias. Nesse período só podia andar de botas, porque os tênis pegavam exatamente no meu tornozelo, que estava gigante. E a busca por habitación (quarto) é horrível, há cada coisa nesse mundo, minha gente... Conto num dos próximos posts. Por hoje é só.