Procurar piso (apartamento) aqui em Barcelona é uma das aventuras mais bizarras que existem, mas pode ser muito divertido se você é como eu e adora espiar as casas dos outros. Tudo começa nos sites de busca daqui. O mais famoso é o loquo.com, que não só te possibilita encontrar anúncios de habitaciones (quartos) vagos, como também zilhões de outros serviços. Agora vou me deter mesmo é na busca de pisos.
Há sempre muitos cômodos e apartamentos disponíveis para alugar na cidade. Com a alta rotatividade de turistas e estudantes, os anúncios de quarto vago pipocam aos montes todos os dias nos sites de busca, então basta você definir alguns critérios e a aventura tem início. No meu caso, coloquei lá que buscava algo que me custasse entre 200 e 350 euros e as localidades próximas da casa da Silvia ou em bairros centrais de Barcelona. Já que eu ia ter que pagar aluguel, que pelo menos não tivesse que ter gastos adicionais com transporte, certo? No começo não me importei mesmo com critérios (quem me ajudou nisso foi o Alessandro, heteríssimo, então para ele só importava a proximidade do lugar).
O primeiro local que visitei ficava no Paseo de Pujades, uma avenida arborizada e bem bonita. O aluguel custava €300. Liguei para o responsável pelo piso e marquei com ele às 10h do sábado, mesmo porque cheguei numa quinta, mas como todos trabalham o dia inteiro fica mais fácil procurar vagas em apartamentos aos sábados. Quando localizei o início do Paseo de Pujades, estranhei a beleza da rua e o fato de o aluguel ser tão barato. Mesmo assim fui em frente.
Cheguei no prédio, que não era feio, e quando me preparava para adentrar uma moça que acabara de estacionar sua bicicleta na calçada me pediu que segurasse a porta pra ela entrar também. Achei uma coincidência engraçadinha ela poder chegar com a bici e ter alguém para segurar a porta para ela. Entramos. Chegou o elevador, apertei o botão que indicava o quinto andar. Ela me olhou espantada e disse que também ia pra lá. Não me lembro qual era a porta para qual eu teria que me dirigir, mas ela também ia para o mesmo local. Percebemos a coincidência, demos um risinho amarelo e ela me perguntou: "¿tu también estas aqui para conocer la habitación para alquiler?". Eu respondi que sim e os dois ficaram ligeiramente impressionados com a impessoalidade do tratamento recebido. Impessoalidade era pouco: chegamos e um cara com traços indígenas (provavelmente de algum país da América Latina) nos recebeu, e pediu que aguardássemos no salón (sala de estar). No cômodo, havia uma televisão ligada no jornal da manhã da TV espanhola, e bem diante dela uma mesa com uma toalha quadriculada à la cantina italiana de quinta categoria. Um geladeira ficava espremida entre um armário com portas que não se acabavam mais, e pessoas de pijama circulavam pelo local, sacavam comida da geladeira e nos sorriam desconcertadas. No sofá velho com uma capa marrom por cima, uma mulher muito branca e loira esperava sua vez de conhecer a habitacion, ao lado de um menino possivelmente japonês que fazia o mesmo. Me sentei ao lado deles tentando esconder a minha estupefação e esperei a minha vez.
Então o tal Fernando, com quem eu marquei de conhecer o quarto e era o homem com cara de índio, me chamou pelo nome (oohh!) e me pediu para acompanhá-lo. Lá fui eu para um cubículo de uns 2X3m, com uma cama de meio solteiro (lamento, mas nem o Johnny Luxo de lado caberia naquilo) e um armário acoplado à parede, e a ventana, claro, era al interior (aqui há ventanas - janelas - que dão para um átrio de dentro do prédio, portanto al interior, e outras que dão ao exterior, que não é preciso explicar, certo?). Ele me lançou um olhar de indagação do tipo "¿te gustas?" e eu novamente usei meu sorriso amarelo e disse: "voy a piensar se me quedo con la habitacion y cualquier cosa llamote, ¿vale? Gracias". Não preciso dizer que não voltei mais àquela espelunca e nem sequer dei sinal de vida, né? Quando estava pra sair do prédio, a mulher da bicicleta estava na portaria e me perguntou o que eu estava pensando daquilo. Eu fui super sincero e disse "Claro que no voy a quedarme con la habitación. ¡Es mucho impersonal!". Ela então me disse que era argentina, estava tentando alugar um piso só pra ela e que alugaria os outros quartos, se eu não queria lhe passar meu e-mail para que me chamasse quando tivesse algo alugado. Eu pra ser simpático olhei bem pra cara maquiada dela, rodeada de uns cabelos descoloridos e com a raiz aparecendo e respondi: "¡Por supuesto! Fuimos vecinos (vizinhos) en America Latina y podemos ser vecinos aqui también". Ela ficou felicíssima, anotou meu e-mail e saiu serelepe com sua bici branca. E eu pensei com meus botões "até essa louca conseguir alugar algo eu já estarei alojadíssimo".
Soube depois pelo Ale que há apartamentos gigantescos como aquele que visitei que os donos simplesmente contratam alguém de uma imobiliária ou de uma agência e colocam pra tomar conta e alugar daquela maneira como se estivessem vendendo banana. Claro que passava longe do tipo de acolhida que eu esperava obter. Então continuei a procurar, e foi uma sucessão de desastres. Vou contar só alguns bem peculiares para que vocês não pensem que Barcelona é inabitável e que a humanidade está perdida. Em um que ficava em Vallcarca (um bairro ao lado do famoso Park Güell, com uns prédios bem bonitos e uma vista arrasadora de toda a cidade), moravam uns meninos, digamos, bem pouco higiênicos. Entrei no apartamento e dei de cara com o dono esparramado no sofá, com um cobertor xadrez até as orelhas e uma pilha de lenços Kleenex ao lado dele. O nariz de pimentão já denunciava que ele estava quase morto de tanta gripe, e como não podia me atender um italianinho (beem bonitinho, saradinho, com um nariz esculpido desse tamaninho e bem machinho) que estava de saída do apartamento me mostrou o lugar. Havia migalhas de pão em todos os corredores da casa, ao menos um copo sujo em cada cômodo, uma samambaia descontrolada ameaçava devorar quem se aproximasse da terrassa (varanda), o forno estava sem porta e todo negro como que se um coquetel molotov tivesse explodido lá dentro ("el horno no funciona, pero vamos a arreglarlo esa semana sin retardo", me jurou ele), dos dois banheiros apenas um funcionava porém estava inutilizável devido à quantidade de pêlos que se amontava pelo chão, colados às gotas de xixi que faziam uma corrente ao redor do vaso sanitário, mas a habitacion em si era média, iluminada e ainda continha uma varanda, ó-te-ma pra se jogar depois de ver todas, eu disse todas as quatro paredes forradas de cima a baixo com fotos de mulheres peladas. Era muita coisa para um só estômago, no caso o meu. Mais uma vez agradeci e disse que ligaria caso me interessasse em ficar com o quarto, e sumi o mais rápido que pude.
Em um outro, cuja planta fora desenhada inspirada numa tripa (sabe aqueles apartamentos de comprido que para chegar no quarto você faz um tour obrigatório pela casa toda?), havia duas coisas extraordinárias: primeiro, o proprietário teve a idéia genial de instalar uma ducha dinamarquesa no banheiro. É aquela na qual você entra num tipo de espiral toda furada, que jorra água a todo vapor no corpo inteiro ao mesmo tempo. Uma delícia, não? Pois é. Só que para ter aquilo e não lavar o recinto todo enquanto você toma banho, é necessário instalar uma espécie de tubo que circunda a espiral e impede que um tornado aquático destrua o ambiente. Ainda assim estaríamos bem se se descontasse o fato de que o banheiro tinha uma área minúscula, e que pra conseguir ter o bendito tubo em volta da ducha espremeu-se a coitada da privada num canto tão diminuto que a pessoa tinha que fazer uma torção no tronco para conseguir castigar a porcelana, se é que me entendem, já que não há ser humano no mundo que tenha um ombro tão estreito que caiba naquele espaço pífio. Não me imaginei lendo o jornal ali pela manhã, definitivamente.
Nesse apartamento tão bem planejado, o pior ainda estava por vir. Imaginem o momento da criação da frigideira. Agora, o criador a colocando pra funcionar, jogando óleo nela e fritando um ovo, satisfeito de ter sido tão criativo. Em seguida, ele frita uma linguïça. E depois bacon, salsichas, bife de fígado, medalhão, omelete, e se ele for espanhol, uns bons churritos. Imagine que o surgimento desse utensílio tão importante tenha ocorrido há centenas de anos, e que ele seja imortal e tenha feito isso por todo esse tempo sem se dar conta de que um outro alguém inventou o detergente, ou um terceiro ainda mais sábio deu origem ao Veja multi-uso. Pense que esse criador jamais apresentou o pano úmido ao fogão, de tão maravilhado que estava com sua filha frigideira. Pois eu conheci o fogão do criador da frigideira, e ele está aqui em Barcelona, no mesmo apartamento em que a ducha dinamarquesa trava uma guerra com o vaso sanitário.
Calma que sempre dá pra ficar pior. Acontece que o dono do piso era um velhinho muito simpático e querido. Contei um pouco da minha história pra ele, que estava estudando pela primeira vez na Espanha mas que já conhecia o país, que Madri era o máximo também e aquele forfait todo. E eis que a minha santa boca solta a sentença de morte: "Ai, adorei comer churros com chocolate em Madri, se tem uma coisa de que tenho saudade é dos churros de lá!". Mas pra que sentir saudades se se está diante de um ouvinte nativo e prevenido, não é mesmo minha gente? O querido tinha (adivinhem!) churros congelados na sua geladeira! E claro, como todo bom velhinho nacionalista, decidiu fritar uns fresquinhos pra mim naquela hora mesmo! Não se esqueçam que eu sou um menino fino e educado, não podia de maneira nenhuma recusar o convite (eu sou muito rápido pra essas coisas, mas foi tão de supetão que na hora não me veio qualquer desculpa à cabeça). Então respirei fundo, imaginei uma aura lilás em volta do meu corpo, encarnei o avestruz e me joguei chamando Jesus nos churros com chocolate do velhinho.
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3 comentarios:
que nostalgia, Ri!!! eu passei por coisas parecidíssimas... desse e de todos os outros posts. tô amando seu brogue, escreva mais e sempre, sim?
Huahuahauahuahau!!!!!
Que medo dessa frigideira!!! O churros tava bom pelo menos?
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